domingo, 25 de outubro de 2009

Jean Baudrillard: o profeta do fim do mundo



Um autor que considero excepcional, além de Slavoj Zizek e Paul Virilio é Jean Baudrillard. Sua obra mais importante pouco lida ou conhecida é “A Troca Simbólica e a Morte(Edições Loyola), uma reviravolta na teoria marxista da história que serve de base para a constituição de sua teoria estruturalista e semiótica do signo, mais antropológica, uma critica aos signos e sinais de utilidade e comodidade com os quais estamos familiarizados. Sua inspiração é oriunda de sua trajetória singular.


Nascido em Reims, França, em 1929, aprendeu alemão na infância, o que auxiliou na tradução de Brecht e Peter Weiss. Em 1966 defendeu sua tese de doutorado em Sociologia na Universidade de Nanterre, sede do movimento de Maio de 68, ano em que aparecem suas primeiras publicações. Esteve várias vezes no Brasil e atualmente ministra seminários na Europa e nos Estados Unidos. Inspirando-se em autores como Nietszche, Horderlin, Sartre e Barthes, muito distante portanto de toda a filosofia tradicional, Baudrillard possui uma obra é de difícil classificação, situando-se entre a Sociologia, Hermenêutica e Filosofia. Buscando uma sociologia-crítica, uma teoria do sistema dos objetos e de seu sentido para além do utilitário, uma teoria do consumo como padrão moral de nossas sociedades, diversas de suas idéias provocaram celeuma entre os Cientistas Sociais.


Em A Sombra das Maiorias Silenciosas, Baudrillard nos revelou que a massas não obedecem ao político, antes o absorvem no sentido de que não se deixam representar por nenhum sistema. Em Da Sedução , defende que não há produção - o que liga o mundo é a sedução, um mundo onde os referentes estão volativizados, mundo encantado que funciona como o pano negro da verdade. Inventor do conceito de hiperrealismo, definindo-o como o sistema de máxima referência, exatidão e verdade, que sempre nos oferece mais cor, mais fidelidade, mais relevo, privando-nos de dar algo em troca.


Em as Estratégias Fatais, mostra que são os objetos é que são astutos, geniais e cínicos, mais do que o sujeito, colocando neles o gozo e a fascinação. Mostrando os efeitos de uma sociedade que atingiu o êxtase, a saturação, a multiplicação enlouquecida dos signos nessas obras Baudrillard revela numa fase menos teórica, mais intensa e fragmentada que incluem inclusive autobiografia como por exemplo em Cool Memories.

Em A troca simbólica sua noção de produção - diferente de Marx - aparece com mais vigor na tese de que hoje se produz mais signos do que mercadorias e o que é pior, não sabemos para quem e o que produzimos. Na consideração do capitalismo como construtor de um estilo de vida e de morte, Baudrilard sugere que as necessidades se sustentam pela força da aparência, turvam nossa distinção entre o que é verdadeiro e falso, artificial e real, e fundamentalmente, faze-nos esquecer da morte que nos espreita. Pensamento aparentemente fantasmagórico, não se trata das diferenças entre o real e suas cópias, tema a que estamos tão acostumados a ver em sua obra: lhe é anterior, trata-se de resgatar uma idéia de Mauss de um acordo simbólico entre homens e o universo simbólico que nos cerc e que sempre existiu na cultura.



Tudo o que se seguiu em suas obras posteriores - o mundo como algo inconcluso, o fim imaginario dos anos 90 como ilusão, o desaparecimento do conceito de progressão linear, o desejo de evitar o apocalipse virtual - tese presente em “Tela Total” - devem muito a esta tese fundamental que só pode ser o de um mundo do consumo insignificante que ousa roubar a própria morte.

Defendendo que as sociedades atuais perderam o simbólico como forma de troca social, e nela, a seu motriz paradoxal, a morte, Baudrillard nos diz que fomos roubados de nossa morte simbólica, fomos vítimas da perda total da morte como aquilo que une homens e mundo, só restando a morte natural que cumpre o papel pornográfico, censurado, que cumpria o sexo em outras épocas. Tornar-se o profeta de um presente perfeição realizado e a beira do colapso ”A forma nunca deve ser entendida como experiência real de um sujeito ou de um corpo, mas como uma forma - eventualmente a de uma relação social - na qual se perde a determinação do sujeito e do valor(...) O sistema pode se ramificar, se desramificar - todas as energias liberadas voltam a ele um dia: foi ele que produziu o próprio conceito de energia e de intensidade. Por que o sistema é o mestre: ele pode, como Deus, vincular e desvincular as energias; o que ele não pode fazer (e que é aquilo que ele também não pode escar) é ser reversível”



Superando a lei do valor de Marx, a Lei do Pai e do Significante da Psicanálise, buscando sua inspiração os anagramas de Saussure, a troca/dádiva de Mauss, Baudrillard chega a uma conclusão paradoxal: “Há apenas um evento teórico que é para nós da mesma ordem de grandeza desses: a proposição da pulsão de morte por Freud”. Utilizando o método de ”violência teórica”,diz nos que ”hoje todo o sistema oscila na indeterminação, toda a realidade é absorvida pela hiper-realidade do código e da simulação. É um princípio de simulação que nos rege doravante em lugar do antigo principio de realidade. As finalidades desaparecem; são os modelos que nos geram. Já não há ideologia; há apenas simulacros.”



Analisando exemplos como os da operacionaldiade cibernética, o código genético, a ordem aleatória das mutações, o princípio de incerteza, Baudrillard nos mostra que tudo o que esta a nossa volta e que sucede a ciência com a qual estavamos costumados a trabalhar, deteminista, objetivista, dialética.” Não combatemos o aleatório a golpes de finalidades, não combatemos a dispersão programada e molecular a golpes de tomadas de consciência e de superações dialéticas, não combatemos o código a golpes de economia política nem de revolução. (...) É preciso levar as coisas ao limite, onde, naturalmente, elas se invertem e se desfazem”e isto é a própria Patafisica “uma ciência das soluções imaginárias, isto é, uma ficção cientifica do retorno do sistema contra si mesmo, no limite extremo da simulação, de uma simulação reversivel numa hiperlogica da destruição e da morte”.

Para Baudrillard, pouco a pouco, os mortos deixaram de existir. Eles são rejeitados, jogados para fora da circulação simbólica do grupo. Não são seres integrais, parceiros dignos da troca e fazemos que se deem conta disso ao proscreve-los para cada vez mais longe dos grupo dos vivos, da intimidade domestica ao cemitério, primero grupo ainda no coração do lugarejo ou da cidade, depois primeiro gueto e prefiguração de todos os guetos futuro” Todos os demais excluídos encontraram um lugar de abrigo da cidade moderna, asilos, hospícios, etc, só a função morte não. “Não se sabe mais o que fazer com relação a isso. Por que hoje não é normal estar morto, e isso é novo”. Estar morto é uma anomalia inconcebível, seu lugar é inecontrável nada de lugar ou tempo, mas eis o paradoxo radical: é que as cidades modernas inteiras assumem essa forma: são cidades mortas e cidades damorte.


Para Baudrillard, o fato de que os conjuntos que habitamos parecerem-se com cemitérios, e o fato de que muitos cemitérios constituem os poucos espacos verddes da cidade, diz muito sobre a inversão dos valores na necrópole moderna. Com a morte, acontece que ela demarca, separa os vivos e os mortos, essa equivalência universal da condição humana, só passa a exisitr a partir dos surgimento de uma discriminação social dos mortos. “A morte, nossa morte, nasce mesmo no século XVI. Ela perdeu a foice e o relógio, perdeu os Cavaleiros do Apocalipse e os jogos grotescos e macabros da Idade Média. Tudo isso ainda era folclore, festa, por cujo intermédio a morte ainda era trocada, claro que não com a eficácia simbólica dos primitivos, mas ao menos como fantasma coletivo no frontão das catedrais e ou nos jogos partilhados do inferno.”


O que Baudrillard encontra na história é o fato de que com a desintegração das comunidades tradicionais, a morte deixa de ser partilhada. Nasce nossa obsessão com a morte, a vontade de abolir a morte por meio da acumulação, motor fundamental da racionalidade econômica, uma fantasia do adiamento da morte. “Toda a nossa cultura não passa de um imenso esforço por dissociar a vida da morte, conjurar a ambivalência da morte em beneficio exclusivo da reprodução da vida ...abolir a morte é o nosso fantasma. Nenhuma cultura conhece essa oposição distintiva entre vida e morte e talvez por isso o pensamento de Bataille seja tão essencial ao pensamento de Baudrillard: ele como Mauss, viu a morte como excedente do paroxismo das trocas, da superabundância e do excesso. O que o aproxima a Bataille é o fato de que a idéia de morte não é de modo algum falha da vida, que éla é desejada pela vida e aboli-la não passa de um fantasma delirante da morte (excesso, ambivalência, dádiva, sacrifício, gasto, paroxismo) “A morte não é resolução nem involução: ela é reversão e desafio simbólico”.


Ainda que em certa altura, para Baudrillard, o próprio Bataille se equivoque, o que ele quer destacar é que se morte e sexualidade são biologicamente ligadas como destino orgânico dos seres complexos, isso não tem nada a ver com a relação simbólica entre a morte e o sexo. “Ela é jogo, desafio e enlevo, e é jogada ao frustrar o jogo da outra”. Para Baudrillard, o fato de que em outras culturas, a morte começa antes da morte e que a dura dure depois da vida, aponta para a indistinção possivel entre vida e morte. “Nossa idéia moderna da morte regida por um sistema de representações totalmente diferente: o da máquina e do funcionamento”.A ordem simbólica não conhece essa digitalidade abstata. Nem a vida nem a morte podem mais ser atribuidas a um fim qualquer: logo, já não há pontualidade nem definição possível da morte”.


Trata-se de uma ilusão do sujeito, por um paradoxo histórico: no mesmo momento que que é concebida como natural, profana e irreversível na epoca das Letras e da razão, entrou em contradição com os valores individuais da sociedade burguesa, progresso ilimitado da ciência, domínio da natureza em todos os sentidos.” A morte natural é a morte colocada sob jurisdição da ciência, e que tem a vocação de ser exterminada pela ciência”. Esse é o progresso do social, que anexa tudo a si mesmo, inclusive a morte. “Cada pessoa é despossuida da morte, não lhe sendo jamais possível morrer como bem entender. Ela nunca mais terá liberdade exceto para viver o máximo possível. Isso significa, entre outras coisas, a interdição de consumir a vida sem considerar limites”.


Dessas reflexões, as consequências: a velhice torna-se o novo peso morto das sociedades - o velho deixa de ser o pivô simbólico dos grupos para passarem a representar a morte social antecipada; valorização da morte em família - única que tinha sentido pleno para a coletividade tradicional - torna-se insignificante perto da morte violenta, acidental, aleatória, que não tinha sentido para as comunidades antigas: ”ela é a única assunto de crônica, fascinar, tocar a imaginação. “Exploração abjeta da morte pela mídia? Não, a mídia se contenta em jogar como fato de que os únicos eventos que significam imediatamente para todos, sem calculo nem, desvio, são os que envolvem, de um ou de outro modo, a morte” Baudrillard nos recorda que não existe morte natural para os primitivos, toda a morte é social, publica, coletiva, sendo sempre o efeito de uma vontade adversa que deve ser absorvida pelo grupo”.”Quanto a nossa morte, é um qualquer que partiu. Já não há o que trocar. Ele já e um resíduo antes de morrer”.

A leitura de Baudrillard é uma necessidade urgente. Sua contribuição ao pensamento social contemporâneo supera Foucault, na busca de uma história da exclusão - das crianças, dos loucos, das raças inferiores - pois nos revelou há uma que precede e que lhes serve de modelo de racionalidade: a dos mortos e da morte ”uma evolução irreversível assinala a passagem das sociedades selvagens a modernas”; retoma autores fundamentais como Bataille, Mauss e Nietzsche como apoio para reverter o marxismo numa teoria mais contemporânea; talvez o primeiro autor, depois de Alain Finkielkrault, de A nova desordem amorosa, a dissercar com exatidão o universo feminino, pensador original dos fenômenos extremos, atos terroristas e todos os fatos agudos de nossa política contemporânea, Baudrillard, ainda que impregnado de niilismo, e sem oferecer saídas satisfatórias, disseca o mundo com a precisão de um cirurgião, e exige por isso, nossa atenção.

3 comentários:

Elaine disse...

Olá Prof.Jorge,

Desculpe o incomodo,mas como não consegui encontrar seu email, estou tentando contato através de seu blog e orkut. Meu nome é Elaine Vidal, sou mestranda em Artes Visuais pela EBA/UFRJ. Em uma recente busca na internet por artigos acadêmicos sobre meu objeto de pesquisa, simulacros de beleza na publicidade, encontrei um material sobre J.Baudrillard e acredito ser de sua autoria,porém estava sem referencias de publicação ou data, além de estar aberto para edição(.doc). O senhor está ciente da disponibilidade desse material na internet. O título é Introdução ao pensamento de Jean Baudrillard,são cerca de 149 páginas. É um material interessante e gostaria de citá-lo em meu projeto .Se concordar asseguro-lhe que será mencionado como autor e lhe darei notícias depois caso seja de seu interesse.

Aguardo reposta.
Att.
Elaine Vidal
Diretora de Criação
LUPA - Laboratório Universitário de Publicidade Aplicada.
Escola de Comunicação,sala 114 | ECO - UFRJ
http://lattes.cnpq.br/6743857347988993

Felipe Polydoro disse...

Prezado prof. Jorge,

Meu nome é Felipe Polydoro, sou mestrando na Famecos-PUCRS - orientado pelo prof. Juremir - e também gostaria de citar o referido texto (Introdução ao pensamento de Jean Baudrillard) na minha dissertação. Imaginei tratar-se de um livro, mas não encontrei outra menção a este na internet ou em bibliotecas. Peço, portanto, referências para citá-lo no trabalho. Muito obrigado por sua atenção. Se puderes enviar por e-mail, agradeço: felipepolydoro@hotmail.com.

ketlle disse...

Meu nome é Ketlle, sou doutoranda na UFSC e gostaria de citar o referido texto (Introdução ao pensamento de Jean Baudrillard) na minha tese. Peço, por favor, referências para citá-lo no trabalho. Muito obrigado por sua atenção. Se puderes enviar por e-mail, agradeço: ketllep@yahoo.com.br