segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Maffesoli na Câmara Municipal


No próximo dia 5 de novembro, às 14 horas, no Plenário Otávio Rocha da Câmara Munipal, o Legislativo estará recebendo o prof. Michel Maffesoli. Autor de uma obra vasta sobre pós-modernidade, criador do conceito de tribalismo, estudioso da vida cotidiana e de suas caracteristicas, falará aos vereadores, numa mini-conferência, sobre o tema "Opinião Publica e Opinião Publicada". Devemos tudo a intermediação de Juremir Machado, que como se sabe, é a antena portoalegrense da pósmodernidade, e é claro, a Palomas, que cedeu seu ilustre intelectual.Maffesoli estará na capital para um evento da Famecos. Mas sua participação na Câmara é importante, já que é uma oportunidade de ver suas ultimas reflexões sobre o contemporâneo. Sobre Maffesoli, em um artigo publicado no Jornal do Brasil, (Idéias, 10/1/2005) escrevemos:

"Depois da publicação de A parte do diabo, pensou-se que a contribuição de Michel Maffesoli se encerrara. Afinal, é um dos poucos autores que tiveram praticamente toda a sua obra traduzida no Brasil, mesmo que circulando em ambientes intelectuais reduzidos. Além disso, seus leitores queixavam-se há algum tempo da repetição de temas, dentro do estilo circular e prolixo que caracteriza o autor, que teima em retornar as mesmas questões, sejam das formas de socialidade e a presença do dionisíaco em nossa cultura. Ledo engano.

A razão é que Maffesoli retorna com dois novos livros. O primeiro é Notas sobre pós-modernidade: o lugar faz o elo (Atlântica), um conjunto de artigos curtos no qual o autor repassa as idéias que o tornaram célebre: a caracterização da pós-modernidade, a contraposição entre a razão sensível e a sociabilidade, o mundo como jogo e a questão da duplicidade. O texto possui uma análise de Patrick Tacussel que tem o objetivo de apresentar sua obra. Resta saber porque o lugar escolhido foi o final da obra. Coisas pós-modernas...

O segundo livro é O mistério da conjunção: ensaios sobre comunicação, corpo e socialidade (Sulina). O autor avança em temas até então inexplorados em sua obra: prostituição, tempo ocioso e alimentação revelam-se como os novos lugares de uma socialidade das sombras. O eixo de reflexão do autor desloca-se da sociabilidade para a comunicação e reintroduz a sua preocupação com a dimensão da vida cotidiana presente em obras anteriores.

Michel Maffesoli é um autor prolixo. Sociólogo, professor na Sorbonne em Paris, Diretor do Centro de Estudos do Atual e do Quotidiano, é editor da Revista Societés, uma das mais importantes da área de Ciências Sociais. Traduzido nos Estados Unidos, Europa, Japão e Brasil, chamou a atenção pelo calor de suas análises da realidade humana em seus comportamentos mais frívolos. Analisando o profano e o sagrado, as festas e os rituais, sempre de forma minuciosa, Maffesoli provou o quanto a dimensão dionisíaca da existência continua a perdurar. Ela é vital, pois funda a sociabilidade e liga os sujeitos a partir do sentimento de proximidade.

Com uma perspectiva libertária, ele pode ser um teórico de análise imediata e da vida cotidiana, dimensões muitas vezes desprezadas pelos intelectuais de plantão. Mas o faz como um grande defensor da liberdade contra o autoritarismo. Isso não tem nada haver com uma crítica ao Estado, modelo de tirania. Ao contrário, a critica de Maffesoli é a concepção técnica do mundo, onde tudo e todos obedecem as leis científicas. A inspiração é Georg Simmel e Alfred Schutz, para quem a experiência coletiva e as relações intersubjetivas ocupam o primeiro plano.

Notas sobre pós-modernidade parte da critica às ideologias, aquilo que Jean-François Lyotard chamou de ''grandes relatos de referência''. Para Maffesoli, o marxismo, o freudismo e o funcionalismo são sistemas monistas que se apoiam no causalismo exclusivo e excludente. Sistemas exclusivos porque a causa identificada é determinante, sobredeterminante, hegemônica, unificada. Excludentes, porque não há salvação fora do modelo explicativo que tal causa supostamente fornece. A consequência é a produção de um fideismo rigoroso, rodeado de fanáticos e seus dogmatismos.

O mistério da conjunção é traduzido por Juremir Machado da Silva, especialista na obra do autor e que nos anos 90 foi um dos grandes divulgadores de sua obra no Brasil. Maffesoli aqui abusa de suas noções de praxe como orgia, socialidade, tribo, emoção e estética ''pretendo mostrar que o laço social não é mais unicamente contratual, mas contém boa parte de não racional, de não lógico, algo que se exprime na efervescência de todas as formas ritualizadas (esporte, música, canções, consumo, consumição, revoltas, explosões sociais) em geral, totalmente espontâneas''.

Boa parte da curiosidade deste volume encontra-se no capítulo dedicado à interpretação da prostituição. Em ''A prostituição como forma de socialidade'', Maffesoli retoma o tema de ''A sombra de Dionísio'' para mostrar que o sexo, e não o trabalho, é o verdadeiro motor da história. Ele vale-se de exemplos históricos que mostram a centralidade da prostituição na vida social.

Já Notas sobre pós-modernidade chama a atenção exploração do conceito de ''duplicidade'', já presente em obras anteriores. A idéia de que o individuo é fragmentado, que vive em tensão permanente entre o que é e o que gostaria de ser é o centro do capítulo. Para Maffesoli, a razão humana procura a unidade, o idêntico, mas nada pode fazer contra os sentimentos e afetos que nos levam a turbulência e a vida desregrada que se revela nas artimanhas do dia adia, nos subterfúgios contra a dominação, no espírito rebelde e na revolta contra o mundo. ''É por ser múltiplo em si mesmo que o indivíduo não se reconhece na rigidez social''.

A obra de Maffesoli é o testemunho de um sobrevivente intelectual. Num mundo dominado pela razão ele afirma o sentimento; num mundo em que impera a tecnologia, ele busca as estruturas arcaicas presentes no dia a dia. Maffesoli pode já ter passado pelo seu grande momento teórico, que muitos consideram que ocorreu com a publicação de O tempo das tribos. Mas um bom autor é como vinho, fica melhor com o passar do tempo. Se aqui e ali, uma ou outra idéia aparece como um eco perdido ao longo de sua obra, vale lembrar que os exemplos são atuais e a proposta, meritória: provar que o imaginário, em sonhos e fantasias, é ainda ''ópera clandestina de que somos os frágeis atores''. Seu sucesso é devido a insistência com que se debruça sobre nossas crenças coletivas; é devido menos a análise sociológico do que a sua contribuição antropológica. Não se espere grande renovação analítica com estas obras. Ao contrario, é por ser teimosamente repetitivo que as respostas de Maffesoli não nos deixam indiferentes ao mundo.

3 comentários:

Rafael Arenhaldt disse...

Jorge, obrigado pela dica. Estarei lá no dia 05/11.
Forte abraço
Rafael Arenhaldt

Jorge Barcellos disse...

Obrigado. Será importante contar com a presença de um maffesoliano.
Jorge Barcellos

Ro disse...

Professor Jorge não vou perder essa oportunidade dia 5 de novembro. Obrigada, um grande abraço.
Rosangela Cardoso