terça-feira, 14 de junho de 2011

Homenagem à Loureiro



Num momento em que o presidente do Senado, José Sarney, revela sua intenção em apagar parcela da memória daquele Legislativo, é salutar a iniciativa do vereador João Dib (PP). Para lembrar a passagem do 47º aniversário de morte do ex-prefeito José Loureiro da Silva, o parlamentar promoveu, no dia 3/6, novamente ato solene que faz há mais de 18 anos junto ao monumento. O simples fato de Dib não esmorecer em suas homenagens deveria ser motivo de admiração. Na oportunidade, Leandro Telles, emocionado, lembrou os principais momentos da trajetória do ex-prefeito. Pode-se imaginar que vêm à memória de João Dib as discussões entre ele e Loureiro para a conclusão da avenida Farrapos, pela criação do Hospital de Pronto Socorro, para a construção do Centro de Saúde Modelo, e, principalmente, o quanto foi difícil a construção do primeiro Plano Diretor de Porto Alegre. Mas tudo isso é mais do que a demonstração de valor à herança de um notável prefeito. A estátua que observa o projeto do aeromóvel quase parece dizer: “Se fosse comigo, já estava concluído”. É disto que se trata: o que a memória de Dib preserva é a defesa de uma utopia para a cidade. Ela é a defesa do ideal de modernização da Capital. Como Robert Musil define, utopia tem mais a ver com “senso de possibilidade” do que com “senso de realidade”. Isso Loureiro tinha muito. Em tempos de preparativos para mais uma Copa do Mundo, nada mais necessário.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Zizek: cuidado, ele pode estar certo!




O que a esquerda vem fazendo nas últimas décadas é seguir brutalmente o destino de render-se, de acomodar-se, de fazer os "compromissos necessários " com o inimigo declarado. Slavoj Zizek









Diz-se que quando pediram a Slavoj Zizek para contar um segredo, ele teria respondido "- o comunismo vai ganhar". A frase resume o espírito daquele que tem sido um dos mais importantes teóricos de esquerda da atualidade. Zizek é o que podemos chamar de filósofo "arrasa-quarteirão": a palestra que proferiu no Salão Pedro Calmon da Faculdade de Economia da UFRJ, na praia Vermelha, em 2008, foi um imenso sucesso. Emir Sader relata que ao final da conferência, sob salva de palmas, disparou "– Chega! Guardem suas energias para quando chegar o comunismo". Em 2003, na Argentina, não foi diferente: Zizek reuniu mais de dois mil e quinhentos estudantes e professores atentos durante horas, experiência magistralmente registradas no documentário Zizek! de Astra Taylor. Paradoxalmente, este ícone da esquerda é o que mais dispara críticas à esquerda atual " o que a esquerda vem fazendo nas últimas décadas é seguir brutalmente o destino de render-se, de acomodar-se, de fazer os "compromissos necessários " com o inimigo declarado. Representa o socialismo, porém pode seguir plenamente o thatcherismo econômico; representa a ciência, mas pode seguir plenamente o império da multidão de opiniões, representa a democracia popular verdadeira, porém também pode jogar o jogo da política como espetáculo e dos pactos eleitorais; representa a fidelidade a certos princípios, porém pode ser totalmente pragmático". Para a esquerda local, já se disse tudo, menos que é masoquista. Agora se pode dizer.

Zizek retornou novamente ao Brasil para duas conferências: a primeira em São Paulo (21/5), no Sesc Pinheiros, integrando a programação do Seminário "Revoluções: uma política do sensível" e no Rio de Janeiro (24/05) no Cinema Odeon Petrobrás. Em ambos fez a conferência "Revoluções: quando a situação é catastrófica, mas não é grave" e o lançamento de seus dois novos livros, "Em defesa das causas perdidas" e "Primeiro como tragédia, depois como farsa", ambos pela Boitempo. A promoção reúne entidades de peso como a FLACSO, CLACSO, Secretaria de Direitos Humanos do Governo Federal, PUC-RJ entre outras. Intelectual de produção vasta, sua trajetória é pouco conhecida dos brasileiros. Nascido em 1949 em Liubliana, Eslovênia, Zizek concluiu seu bacharelato em Artes, Filosofia e Sociologia em 1971 e obteve seu doutorado em Filosofia pela Universidade de Liubliana em 1985. Nos anos 70 fez parte da Escola da Eslovênia, onde estudou o pensamento de Hegel e nos anos 80 militou no movimento alternativo, chegando a ser candidato a Presidente de seu pais. Tomou contato com o pós-estruturalismo francês, estudando Jacques Lacan e escreveu uma imensa obra que inclui Porque não sabem o que fazem (1991), Goza teu síntoma!(1992), As Metastases do gozo (1994), O Espinoso Sujeito (1999), Bem vindo ao deserto do real (2003), Visão em Paralaxe (2008) e Lacrimare rerum (2009), entre outras.

O que torna profundamente atual o pensamento de Zizek é o seu trabalho sobre a ideologia. Não se trata da retomada de sua obra "O mapa da Ideologia", conhecida dos brasileiros, mas do aprofundamento de aspectos de sua obra pouco conhecida "O sublime objeto da ideologia" (2005) em que integrou de forma original as percepções psicanalíticas da fantasia à critica marxista da ideologia. Isto lhe lhe permitiu, pela primeira vez, propor uma teoria de como funciona a ideologia no plano subjetivo "Não existe a crença comum, o que existe é a crença em que os outros crêem." Zizek reconstrói os processos que fazem que homens, em determinadas circunstâncias, justifiquem e dêem um ar de verdade a uma mentira, numa espécie de construção coletiva . O "vamos fingir que as regras funcionam" oculta, entretanto, o fato de que as instituições no capitalismo contemporâneo estão falidas e ninguém de fato acredita nelas. Agimos como na fantasia de Papai Noel: nem os adultos, nem as crianças, acreditam mais nele. Pior: agimos assim com nossas instituições, inclusive com a democracia. A subjetividade também está sobre tremenda pressão da ideologia: cuidado, o capitalismo quer dar um significado a sua vida, diz Zizek. Ele toma como exemplo os anos que passamos consumindo publicidade, uma das melhores formas de se pensar o que acontece com nossa subjetividade. Nos anos 60, a propaganda automobilista vendia as qualidades de um carro; nos anos 70, o status que ele oferece ao consumidor para finalmente, hoje, ser a promessa de libertação da sociedade opressora. Para Zizek, o capitalismo contemporâneo é profundamente ideológico "a política desse capitalismo é a despolitização para que não haja mais uma ideologia clara." Na sociedade de consumo (Baudrillard), a ideologia vendida é a ideologia da diversão como na frase do filme Sociedade dos Poetas Mortos "Carpe Diem" (aproveitem o dia!). Nada mais comprovador do conceito de Lacan - apropriado por Zizek - de gozo excedente, um gozo que nos suborna para mascarar os nossos problemas. A solução, para Zizek, é o retorno à noção de economia política tal como proposta por Marx: politizar a economia e é nesse sentido que Zizek mais aproxima-se de outro teórico do marxismo, Robert Kurz. A ideologia do capitalismo contemporâneo, defende Zizek, quer que acreditemos que a economia não tem nada haver com a política: ela quer uma sociedade a-política, e para isso constrói a idéia de que é besteira discutir política. Nisto reside a radicalidade de Zizek: ele quer que a democracia se garanta sem as influências das pressões de mercado. E claro que os defensores do mercado rugem sem cessar quando ouvem falar de Zizek,chamando-o de intelectual bufão.

Yannis Stavrakakis, em La Izquierda Lacaniana – psicoanálisis, teoria, política (FCE, 2010), mostra que o pensamento de Zizek consolidou-se ao longo dos últimos quinze anos, período em que a Psicanálise e a Teoria Lacaniana passaram a ser recursos importantes na reorientação da teoria política contemporânea. Essa posição, para qual boa parte dos cientistas políticos torce o nariz, origina-se no próprio pensamento de Jacques Lacan, que não foi apolítico, ao contrário, fez criticas ao american way of life, ao capitalismo americano e a sociedade de consumo, o que o levou a associar sua noção de mais-gozo à noção de mais-valia de Marx. Nesse caminho estão Zizek, Cornelius Castoriadis, Alain Badiou e especialmente Ernesto Laclau, para quem "a teoria lacaniana aponta ferramentas decisivas para a formulação de uma teoria da hegemonia", daí a definição de seu horizonte teórico-politico em termos de Esquerda lacaniana, nítido campo de intervenções políticas e teóricas a partir da psicanálise - mas não somente com ela - parte para a critica da hegemonia capitalista contemporânea.

Em "Primeiro como tragédia, depois como farsa", lançado simultaneamente pela Verso ( Londres) e Flamarion (Paris) em 2009, Zizek pergunta se estamos preparados para a história que se impõe sobre nossas cabeças desde os ataques de 11 de setembro. Ele mostra as manobras por detrás das ideologias levantadas pela crise de 2008 e que levou bilhoes de dólares para os bancos. Para Zizek, o que é profundamente ideológico é tratar as crises do capitalismo como algo estranho ao próprio capitalismo, idéia que deseja vender a imagem de um mercado capitalista regulado de outro modo. Ao contrário, ele nos mostra cada vez mais o capitalismo sobrevivendo abaixo de terapias de choque, mercado que exige violência extra-mercado para seu funcionamento. Para Zizek, a tarefa da esquerda critica é expor as características mortais do sistema capitalista mundial. Ele sabe que há algo de pobre na sociedade e acredita profundamente que o comunismo será reinventado para sanar a sociedade. E para isso, dirige-se aos comunistas desiludidos "- não tenha medo de se juntar a nós. Você já teve seu divertimento anticomunista e está perdoado por ele. É tempo de se levar a sério de novo". Ele vai além, mostra o mal-estar e a falta de sentido da democracia moderna e faz a pergunta paradoxal: estamos realmente vivendo em uma democracia? "A Itália de hoje é efetivamente uma espécie de laboratório experimental de nosso futuro", diz. Sua revolta é: como é possível admitir que milhares morram de fome enquanto os bancos enriquecem com seus trilhões de dólares?

Já na obra "Em defesa das causas perdidas", Zizek vai contra o pensamento hegemônico que vê a democracia liberal, as vezes dita pós-moderna, como o melhor dos mundos frente ao passado das lutas comunistas. Isso não quer dizer que as "causas perdidas" que defende estejam abrigadas pelo teto do Fórum Social Mundial: para Zizek, seu lema "Um outro mundo é possível" mostra que seus protagonistas ainda relacionam-se demais com a estrutura já postas pelo Capitalismo. Para fazer seu caminho, ele faz a opção por retornar ao marxismo à sua maneira, o que tem o peculiar efeito de chamar a atenção mundial sobre sua obra: não há dúvida, o que Zizek faz é tornar sedutor o marxismo para as nova gerações. Para isso articula Lacan, Hegel e Marx com cinema, música, cultura popular e a critica dos objetos de consumo. "Em defesa das causas perdidas" entretanto, padece do problema comum aos grandes pensadores contemporâneos: como produzem demais, escrevem demais, torna-se freqüente encontrar traços de obras anteriores nas seguintes. Não há como deixar de ver no capítulo II Lições do passado o eco de suas obras anteriores sobre Robespierre e Mao, ou dos estudos anteriores que fez sobre Estalinismo publicados em espanhol. Há, entretanto, reflexões sobre o pensamento de Heidegger extremamente originais e que não haviam aparecido anteriormente. E é claro, Zizek sempre é um grande contador de causos que sintetizam brilhantemente suas idéias. Em um determinado momento de sua obra, ele cita a ficha de um hotel americano que diz: "Prezado cliente: para garantir que você vai desfrutar sua estadia conosco, este hotel está totalmente liberado do fumo. Qualquer violação deste regulamento resultará numa multa de $ 200". Assim é o Capitalismo, diz Zizek: estamos condenados a ser castigados se recursarmos a desfruta-lo plenamente. Zizek quer nos mostrar o cinismo do capitalismo contemporâneo em sua caminhada em direção a um capitalismo autoritário, contrário ao direitos humanos, como já anuncia o caso chinês. E o grande perigo é que ele pode estar certo.






Publicado no site do Jornal Le Monde Diplimatique em 9/6/2011

terça-feira, 7 de junho de 2011

Slavoj Zizek e o Direito









A idéia de que a Ciência Política, Antropologia e Sociologia são ciências auxiliares do Direito ainda não está totalmente estabelecida como uma prática. Os campos tradicionais das Ciências Sociais tendem a dialogar mais entre si do que com o campo do Direito, produzindo seu aparente isolamento destas disciplinas. Este isolamento, por outro lado, tem sido rompido com o esforço de juristas e cientistas sociais que reivindicam a importância de abordagens interdisciplinares no campo jurídico.

Entre estes autores podem ser citados Michel Foucault. Seu estudo “A verdade e as formas jurídicas” mostrou aos estudiosos do Direito à importância de buscar na história de sua disciplina como sua prática exerce poder, um saber-poder. Renovação semelhante foi introduzida por François Ost em “O Tempo do Direito” onde o autor realiza um diálogo entre as noções de Direito e Tempo, revelando como se determinam mutuamente a construção de quatro medidas: memória, perdão, promessa e questionamento.

Nesse campo de contribuições interdisciplinares para o estudo do Direito um autor que merece destaque é Slavoj Zizek. Nascido na Liubliana, capital da Eslovênia em 1949, doutorou-se em Filosofia na sua cidade natal e estudou Psicanálise na Universidade de Paris. Conhecido pelo uso que fez da obra de Jacques Lacan para uma nova leitura da cultura popular, abordou temas como o cinema de Alfred Hitchcock e David Lynch, o leninismo e tópicos como fundamentalismo e tolerância. Intelectual de uma vasta produção, sua obra articula filosofia, psicanálise, crítica da cultura, política e cinema. Rotulado como pós-marxista, pós-lacaniano, critico da pós-modernidade e do multiculturalismo, Zizek é um ferrenho critico da hegemonia do capitalismo global. Autor de obras como “Um mapa da ideologia”, “Visão em Paralaxe”, “Bem vindo ao deserto do real”, O Sublime Objeto da Ideologia” e mais uma dezenas de livros em várias línguas, Zizek situa-se na linha de frente do debate cultural contemporâneo de esquerda e junto com Cornelius Castoriadis, Ernest Laclau e Alain Badiou constitui a chamada “Nova Esquerda Lacaniana”, caracterizada por construir estudos originais que servem de crítica à hegemonia da ideologia liberal.

Marcelo Grillo em sua obra “O direito na filosofia de Slavoj Zizek”(Editora Alfa-Omega) defende a importância do autor para perscrutar o conceito de Direito. Zizek, diferente da visão marxista superficial, não vê o Direito como integrante da super-estrutura da sociedade. Ao contrário, Zizek vê o Direito no seio das contradições da sociedade capitalista, com críticas à sociedade e a democracia liberal fundamentais para a construção de um novo conceito de Direito. Por exemplo, não se pode, para Zizek, elogiar a China como potência capitalista emergente enquanto se vê a repressão aos direitos dos trabalhadores em seu interior. O Direito, nesse aspecto, é um dos campos da luta ideológica contemporânea, e Zizek receia que a força do neoliberalismo termine por reduzir a capacidade do Direito em realizar a justiça.

É o que demonstra Zizek ao analisar o drama da defesa dos direitos humanos “A nova normatividade emergente para os direitos humanos é, entretanto, a forma em que apareceu seu exato oposto”, frase enigmática mas que significa, que em nome dos direitos humanos, o que estamos fazendo é violar esses mesmos direitos. Em “Os direitos humanos e o nosso descontentamento”(Ed. Pedago), Zizek fala das relações entre os diversos países que compunham a antiga Iugoslávia. Analisando as intervenções militares sob a justificação humanitária, Zizek mostra que o que estava em jogo era a oposição entre o forte nacionalismo de Milosevic e a herança multicultural dos iugoslavos, representados pelos bósnios. Para Zizek, justificar a intervenção militar com base nos direitos humanos terminou por retirar das vítimas a capacidade de reagir, de fazer sua própria história.

Para Zizek, toda política de intervenção baseada na doutrina dos direitos humanos que age sem provocar a politização das vitimas deve ser considerada ideologia do intervencionismo militar a serviço de propósitos econômicos específicos. A inspiração desta posição é Hannah Arendt, que em sua obra “As origens do Totalitarismo diz: “o conceito de direitos humanos, que é baseada na suposta existência de um ser humano em si, desmoronou no mesmo instante em que aqueles que diziam acreditar nele se confrontaram pela primeira vez com seres humanos que realmente haviam perdido todas as outras qualidades e relações específicas – exceto que ainda eram humanos”.

A critica de Zizek aos direitos humanos não se faz, evidente, aos direitos humanos em sim, mas ao fato de que no atual contexto mundial eles atendem aos interesses da nova ordem internacional dominada pelos EUA. A cada intervenção realizada, Zizek questiona a base dos critérios das escolhas “porque os albaneses na Sérvia e não os palestinos em Israel ou os curdos na Turquia. Porque Cuba é boicotada enquanto o regime norte-coreano, muito mais rígido, recebe ajuda gratuita para desenvolver capacidades atômicas “seguras”?. Com isto Zizek quer dizer que as intervenções que se fazem em nome dos direitos humanos são mais em função de supostas razões morais do que intervenções em vistas uma luta política definida. Nesse sentido, a realidade de uma luta política é convertida numa luta moral do bem contra o mal.

Em meio a uma obra polêmica e original, Zizek é um pensador extremamente instigante para o Direito ao clamar pelo retorno da Política e ao fazer a crítica da política dos direitos humanos ao serviço do Capital.












Publicado no Jornal O Estado do Direito, nº 30, p. 21.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Museus e Exposições




Foi Christian Goldsmith que no último dia 17 chamou a atenção no Correio do Povo para a importância das exposições nos museus, em especial, o fato de que nossos museus estão recebendo acervos mundiais. Confesso que sou conservador em termos de museologia. Desde que Andréas Huyssein apontou para o fato de que os museus estão cada vez mais se tornando parte da indústria cultural, museólogos e historiadores se defrontam com o problema de como construir suas exposições e para que fins. Na era das massas, fotografias originais do passado dão lugar a plloters adesivados imensos, objetos originais cedem espaço à réplicas. Por todo o lado vemos a substituição de modelos tradicionais de produção museólogica por modelos ditos “modernos”. Na adoção de novos recursos, entretanto, podemos perder o fundamental: a exposição deve estimular à reflexão, a tecnologia deve servir à educação. O que muitas vezes se vê, no entanto, é a adoção de recursos que visam a fascinação do público e a estimulação de seus sentidos em detrimento da relação com o saber. Vai-se aos museus para gozar e não para aprender.

Para o pequeno museu, isto é um drama. Como competir com exposições do porte de “Titanic”? Como competir com exposições internacionais? Atrair público para os museus entrou em sua fase concorrêncial: ganha quem fizer as exposições que impressionem mais os sentidos. Entramos na era do mega-evento, era do museu-espetáculo. Confesso meu mal estar com tudo isso. Pode-se fazer boas exposições com poucos recursos, focando no objeto e na didática, saída adotada pelos pequenos museus do interior, por exemplo. As exposições estão ficando cada vez mais perenes: como são mega-exposições, levam meses para serem construídas para depois desaparecer como por completo nos depósitos dos museus. No Memorial da Câmara Municipal de Porto Alegre, desenvolvemos o projeto Exposições Itinerantes, que hoje conta com 81 exposições que vão para escolas e instituições, preservando a pesquisa e multiplicando seu alcance junto ao público. (
http://www2.camarapoa.rs.gov.br/default.php?reg=1508&p_secao=117).

O espaço museal está absorvendo rápido demais a idéia de que sua função é incrementar o turismo. Transformado em lugares de comércio, está se distanciando de sua função primordial: a educação. Nesta data, os museológos devem decidir a quem servem: se a um sistema que valoriza a performance, ficarão com a mega-exposição e todo o conjunto de signos que ela envolve. Mas se preferirem um sistema que valoriza a cidadania, voltar-se-ão para o trabalho educativo dos museus. Pois não há nada de pior nesta data de que ver as instituições que deveriam preservar a memória serem as primeiras a efetuar seu esquecimento.


Publicado no Jornal Correio do Povo em 23/05/2011

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Para onde foi o comunismo?



"A principal crítica que faço ao capitalismo liberal não é que ele seja prejudicial, mas que não pode durar para sempre. O comunismo precisa ser reinventado" Slavoj Zizek.

Em 2009, uma série de conferências realizadas em Londres
[1] constatou que três coisas levaram a hegemonia da idéia do capitalismo liberal: as derrotas da esquerda mundial na década de 90, o retrocesso das políticas do estados-de- bem-estar-social e a integração das economias socialistas ao mundo capitalista. Por outro lado, lembraram seus participantes, este contexto de hegemonia ideológica entre o 11 de Setembro e a crise financeira de 2008, sofreu um baque que trouxe de volta um tema caro aos pensadores de esquerda, a defesa da idéia de emancipação política. Entre os palestrantes do referido seminário destacou-se Slavoj Zizek, cujas obras tem analisado o cenário político mundial e suas contradições, na análise da política de países tão diversos como o Afeganistão, os Estados Unidos e à China. Expoente do que Yannis Stavrakakis denominou de “Esquerda Lacaniana”, Zizek rejeita o pensamento da antiga esquerda estalinista e da nova esquerda, apresentando em suas obras uma reorientação da Teoria Política e da análise crítica do mundo contemporâneo, numa perspectiva surpreendente que seria impossível imaginar dez anos atrás. Entre seus principais representantes, encontra-se também Cornelius Castoriadis e Alain Badiou.[2] .

Para Zizek existe um resto no comunismo que não pode ser desprezado. O pensamento de esquerda que defende a democracia liberal é limitado porque não podemos confiar nas empresas para produzir solidariedade social. A esquerda atual aceita com muita naturalidade que o capitalismo seja nosso destino final – só nos resta corrigir alguns equívocos e revoltarmo-nos contra o desperdício irracional de recursos,etc, etc. Para Zizek as experiências reais comunistas foram sangrentas sim, mas não podem ser comparadas aos massacres levados a efeito pelo capitalismo global atual em sua fúria predatória pelo mundo inteiro. Se queremos mudar este estado de coisas, se queremos emancipação política, precisamos de filosofia, e nesse sentido, o comunismo ainda tem valor ao estabelecer a igualdade como um padrão para as políticas que possam vir a surgir.

Dunker
[3] enumera três características do pensamento de Zizek que o tornam referência nos estudos sobre o cenário internacional. Em primeiro lugar é o fato de que Zizek é um intelectual engajado, tomando posição e relendo os aspectos simbólicos ocultos nas mais diversas práticas políticas. Filho de comunistas linha-dura e após amargar anos de desemprego – Zizek foi reprovado para o concurso de professor de filosofia – redigiu os discursos da burocracia estalinista do Comitê Central da Liga Comunista da Eslovênia. Assim viu a formação do discurso nacionalista sérvio e a construção ideológica de Kosovo que percebeu como realização imaginária da identidade nacional iugoslava, uma mitologia histórica contemporânea. Percebeu assim os limites do marxismo de seus contemporâneos vivendo os enlances do socialismo e do capitalismo, seja pela imposição do socialismo iugoslavo ou pelo interesse do capital ocidental na emancipação da Eslovênia.

Em segundo lugar, como fundador da Escola Lacaniana da Eslovênia, uma frente ampla de resistência política que inclui diversos autores e suas reflexões sobre teatro, artes plásticas e música, teve oportunidade de ampliar o campo de análise dos fatos políticos. Foi nesse período dos anos 80 que Zizek foi à Paris e estudou Psicanálise – sua tese de doutorado é sobre Hegel e Lacan. Com isso, Zizek conseguiu fazer uma reflexão não apenas sobre a desintegração dos Estados socialistas do Leste Europeu como ao mesmo tempo discutir a fragmentação política do capitalismo pós-moderno. Obras como O sublime objeto da ideologia (1989) apresenta a tese de que a ideologia atual só funciona porque se articula a uma fantasia, cenário imaginário que oculta um antagonismo social. Se o marxismo falava da “liberdade” da venda da força de trabalho, para Zizek isto é uma fantasia, já que ao vender “livremente” sua força de trabalho, o que o trabalhador perde é justamente a sua liberdade. Sua critica não é a substituição de homens por coisas, mas ao próprio desconhecimento da relação estrutural de seus elementos “a fantasia ideológica não se opõe a realidade, mas estrutura a própria realidade social”
[4].

Em terceiro lugar, Zizek deseja o retorno aos fundamentos da política ou o exercício da política propriamente dita (proper politics). Ela se opõe a pós-política do pós-marxismo inglês e do multiculturalismo, pois entende que as discussões sobre identidade étnica, sexual ou nacional terminam por desconhecer a importância da noção de classe, e assim despolitizam o político. Ela se opõe a arquipolítica, aqui entendida como diluição da política na ascensão do ideal comunitário de destino (religião), porque esta sempre termina em terror. Ela se opõe a ultra-política, definida como certa forma de decisionismo à maneira de Carl Schmitt, que permite distinguir um “terror bom “ de um “terror mal”.
[5] Para Zizek, a política propriamente dita considera o antagonismo do Capital como ponto central, o tema da luta pela liberdade como objetivo e o estudo das formas de perturbar as fantasias ideológicas dominantes como estratégia política.

É a partir desta base teórica que Zizek propõe o retorno aos fundamentos do Comunismo, daquilo que ele chama de idéia comunista. Em Aprés la tragédie, la farce!
[6] Zizek demonstra que estamos vendo sem criticar a consolidação de uma nova etapa do Capitalismo onde a democracia e o livre mercado cessam seus laços e em seu lugar emerge a face autoritária do Capitalismo. É o caso do novo capitalismo chinês que surge das cinzas de seu comunismo. Herdeiro do autoritarismo dos antigos governos asiáticos totalitários, é inspirado no modelo de Cingapura após a queda do regime soviético. O capitalismo chinês representa um grande perigo para a idéia de comunismo não porque representa o seu abandono, mas porque significa uma versão autoritária que não exige grandes mudanças políticas, mas ao contrário, centralização com controle da liberdade de expressão, sem falar do uso indiscriminado da pena capital. O mesmo pais que teve com Mao a Revolução Cultural - e portanto foi a fundo na proposta comunista – foi o que reuniu mais condições para o capitalismo autoritário. Para Zizek a China diz simbolicamente ao mundo é que é possível apenas ganhar dinheiro sem dar importância a democracia e aos direitos humanos. E isso, para Zizek, é inconcebível.

No Capitalismo, as supostas liberdades de escolha se reduzem apenas aquilo que o sistema já escolheu “como a opção entre Pepsi ou Coca-Cola”. De fato, Zizek tem uma experiência pessoal muito significativa no campo do comunismo, já que ele viu, melhor do que ninguém, antigos partidários do comunismo desiludidos assumirem como os mais preparados a gestão da nova economia capitalista. Zizek recusa este realismo capitalista como resposta à utopia comunista ditado pelos adeptos do Fim da História (Fukuyama) e acreditou que devia estar em outro lugar a resposta. A confirmação veio com o final dos felizes anos 90, o 11 de setembro, com a emergência de muros entre Israel e Cisjordânia e na fronteira dos Estados Unidos com o México e se completa com a revolta das populações dos países islâmicos. O mercado e a ditadura não funcionam bem quando deixados por sua conta porque eles precisam de violência sobre o social para funcionar e se baseiam na existência de desigualdades sociais. Zizek defende o conceito de igualdade tal como pregado pelo comunismo como princípio para refundar a política. Ele não abandona a idéia de democracia, mas critica por exemplo as posições das democracias no caso do Tibete em seu conflito com a China, em 2008. Ali onde as democracias viam opressão, Zizek via um Tibete capitalizando-se subterraneamente: mais forte que o autoritarismo chinês era o fim das relações tradicionais na região promovidas pelo capitalismo.

Zizek não quer saber se a idéia do comunista é pertinente hoje. Ao contrário, pergunta: "Como a nossa situação atual aparece da perspectiva da idéia comunista?”. Ao recuperar a dialética do velho e do novo, ele nos mostra de que de nada adianta aprender novos termos para nossa época se não damos conta dos velhos termos - sociedade liquida (Bauman), sociedade pós-moderna (Lyotard), sociedade do risco (Beck) e sociedade da informação (Castells) – todas estas reflexões nos fazem perder tempo para fazer a questão central “o que era eterno no velho conceito de comunismo?”, única forma verdadeira de apreender o que há de novo no mundo.


Zizek afirma que na luta política é preciso defender um mínimo não negociável: para o revolucionário de hoje é não ceder para a sedução de um capitalismo de face humana. A pobreza e a miséria são dados estruturais do capitalismo. Zizek tem todas as respostas para os destinos da política atual? é claro que não!. Mas ele faz perguntas essenciais para a luta ideológica.
.




[1] A Conferência realizou-se em Londres, de 12 a 15 de maio de 2009, no Birbeck Institute, e os discursos das conferências foram publicados por Slavoj Zizek e Alain Badiou na obra “L’Idée du communisme pela Editora Lignes, em 2010. Entre os conferencistas estavam Terry Eagleton, Michel Hardt, Toni Negri, Gianni Vattimo, entre outros.
[2] Conforme Yannis Stavrakakis, La Izquierda lacaniana. Psicanálise, teoria, política. Buenos Aires, Fondo de Cultura Econômica, 2010. Professor da Escola de Ciências Politicas da Universidade Aristótles de Tessalônica, Stavrakakis é autor de Lacan e o Político (2008), Laclau. Aproximaciones críticas a su obra (2008) e o Populismo como espejo de la democracia (2009).
[3] Cristian Dunker “Zizek: um pensador e suas sombras”IN: DUNKER, Christian e PRADO, José Luiz Aidar. Zizek critico: a política e a psicanálise na era do multiculturalismo. São Paulo, Hacker, 2005.
[4] Idem, p. 53.
[5] O decisionismo é uma premissa dos estudos políticos de Carl Schmitt que afirma que toda lei necessita de uma decisão baseada na realidade. Essa definição é essencial para fundamentar o nascimento das Constituições dos Estados Nacionais, e com isso a natureza dos poderes instituintes do Estado. Conforme Ana Paula Arruda Moraes, A soberania como questão de decisão sobre o estado de exceção. Uma análise sobre a ótica de Carl Schmitt. IN: http://www.ambito-juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=6483
[6] Paris, Flammarion, 2010.






Publicado no Jornal da Universidade, abril 2011

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Bin Laden is dead!

A morte de Bin Laden é a forma escolhida pela maior potência do planeta para a comemoração dos dez anos do ataque às torres gêmeas. Centenas de americanos comemoraram a vingança consumada na morte do homem mais perseguido do planeta. Este é o momento Jack Bauer americano, momento em que os Estados Unidos assumem a prerrogativa de serem o lado do bem do planeta e que ao mesmo tempo suspendem todas as garantias de direitos em nome de algo maior, a realização de sua verdade. Quando Jack Bauer, no seriado 24 horas, usou de tortura para seus fins, o pensador Slavoj Zizek imediatamente apontou que este era o imaginário dos EUA. A morte de Osama é o lado real, complexidade objetiva da politica dos EUA e que mostra como a política americana pode ser seu exato oposto.
Qual a mensagem secreta americana com tudo isto: que os Estados Unidos são o senhor da justiça do mundo. Matar Obama sem julgamento? os americanos dizem que sim, foi resistencia, etc, e tal. No fundo, no fundo, o terrorismo não tem nenhum sentido e não se pode medi-lo por suas conseqüências: nesse sentido, a morte de Osama não inaugura nada, não é o fim do terrorismo propriamente dito. Levará – e já há a preocupação americana com isso – a levar o terrorismo ao extremo, exacerbando o atual estado de coisas. Porque não foi Osama que inaugurou o terror, ele já existe em toda a parte, na violência institucional, física e mental de nosso mundo, apenas em doses homeopáticas. Substituir o julgamento por um tribunal por uma corte militar é apenas outra forma de terror. Diz Baudrillard” o terrorismo apenas cristaliza todos os ingredientes em suspenso”.
Talvez o que seja curioso que até o presente momento, a morte de Osama seja, para a maioria das pessoas, uma morte virtual. Nossa realidade é virtual, nossos sistema de informação também, o que mostra o quanto estamos além do principio de realidade. E a morte de Osama também: uma imagem de seu corpo morto lançada na Internet é desmentida; o anúncio da morte fala de um corpo lançado imediatamente ao mar, nos termos dos procedimentos mulçumanos. Quem afinal viu Osama morto? Que o maior feito antiterrorista americano não deixe vestígios mais parece ser é a lição que os americanos levaram do próprio Osama, a de ser capaz de fazer algo sem deixar marcas, o que é a definição de Crime Perfeito de Baudrillard.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Aniversário de Porto Alegre

Porto Alegre completa 239 anos no dia 26 de março.É o aniversário da cidade. A expressão aniversário vem do latim anniversarius, “o que volta anualmente”, de vertere, “voltar”. É a data em que a cidade é repleta de eventos que a homenageiam, expressão que vem do antigo francês homage, “demonstração de respeito pelo senhor feudal”. Quando comemoramos o aniversário da cidade, atualizamos não apenas uma data, mas demonstramos nosso respeito à cidade em que vivemos. Comemorar só tem sentido quando significa festejar com os outros e assumir em grupo uma atitude de reverência. Porto Alegre tem hoje quase um milhão e meio de habitantes. Tem portanto, muita gente para comemorar seu aniversário. Mas realmente comemoramos o aniversário da cidade? Em um aspecto superficial sim, quando lembramos sua história nas imagens do passado e nos damos conta da mudança que sofreu neste tempo. Pois se trata de rememorar uma história da qual os portoalegrenses são seus protagonistas e que tem momentos importantes: a transformação da cidade em metrópole, o nascimento de suas instituições, o combate as formas de pobreza e exclusão social. Em um aspecto mais profundo, ainda temos muito a comemorar no aniversário da cidade. Os portoalegrenses ainda não respeitam o suficiente a cidade em que vivem: dizem que gostam da cidade mas continuam a suja-la todos os dias; reivindicam melhores condições de vida mas continuam a preferir o automóvel à bicicleta tornando a cidade um inferno; dizem que fazem a sua parte mas continuam com o disperdício de água que atormenta administradores públicos. Se gostamos tanto da cidade como dizemos nesse dia, deveríamos ser mais capazes de demonstrar esse afeto. Existem muitas reflexões que o aniversário de uma cidade provoca nos seus cidadãos. Regra geral refletimos sobre seu passado, presente e futuro, avaliamos nosso potencial econômico e o estado de nossos indicadores sociais. Sugiro dois conceitos com que possamos pensar a cidade neste dia. O primeiro é o de Cuidado: o aniversário da cidade deve nos motivar a pensar como podemos demonstrar nossa respeito com a cidade em nossas ações no dia a dia. Como cada cidadão cuida da cidade? - refletimos sobre isso raramente. O segundo é o de confiança: é preciso acreditar que, se fizermos nossa parte para o bem para a cidade, os outros também o farão. O aniversário da cidade é uma festa sim, mas implica riscos: o risco de que de agora em diante passamos a nos envolver diretamente com os destinos da capital, o que é outra forma de exercer nossa cidadania comprometendo-nos diretamente com a vida pública.