quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Maria Della Costa



A Câmara Municipal homenageou Maria Della Costa .Na realidade, e de forma bíblica, poderíamos dizer que ela foi homenageada três vezes. Não pela programação, pela Comenda e pela peça de teatro(ou o vídeo), que de fato aconteceram, mas pelos políticos, classe teatral e população que adentrou as dependências da Câmara Municipal. A razão de tal homenagem deve ser buscada não nas razões da proposta ou da comenda, mas antes, no papel que sua figura exerceu no imaginário de uma época.


Simbolicamente, a homenagem é política porque recupera uma dívida do Estado com a atriz, pelas dificuldades que obrigou Maria Della Costa a experimentar durante a Ditadura Militar. É da classe teatral como simbolo do reconhecimento de sua geração ao seu talento e sua dignidade de atriz. É da sociedade pelo público, que sempre a amou e se encantou com sua figura.

Não foi uma homenagem a uma mulher qualquer. Maria Della Costa é de fato uma das maiores atrizes de teatro do Brasil. A distinção faz sentido: teatro e telenovela não são a mesma coisa. Teatro está mais próxima da arte; telenovela, mais próxima da indústria. Por esta razão, vemos a dificuldade de certos atores com a televisão: para eles, o veículo é rapido demais, é técnico demais. Cenas são decoradas para serem imediatamente pronunciadas para nunca mais serem ouvidas: o que significa o fim do trabalho do ator, da arte onde rever cada detalhe, cada gesto é algo integrante do oficio - algo que o ator de televisão não pode conceber.


Fazer teatro no Brasil foi muito mais dificil e desafiador para os pioneiros. Maria viveu uma época de poucas casas de espetáculos, época onde eram raros os textos de qualidade e que seguiu-se a uma época onde - a nossa, de Porto Alegre por exemplo - há teatros por todo o lugar. E hoje, o legado da tradição literária oferece a qualquer novo grupo espetáculos de qualidade, ainda que muitos prefiram o caminho fácil dos textos de massa populares.


Maria Della Costa viveu estes tempos dificeis e desafiadores. Foi mais do que "a mais bela atriz do teatro brasileiro", como refere-se a ela Juca de Oliveira. Aliás, esse talvez tenha sido seu primeiro desafio, o de mostrar que não era apenas um "rostinho bonito". De origem humilde, passou fome, viajou pelo pais, contruiu um teatro, abriu caminho para muitos artistas, salvou outros da ditadura. Quem tem no currículo tão admiravel contribuição a história do teatro brasileiro? Quem pode orgulhar-se de ter doado 50anos de sua existencia a um projeto cultural de qualidade? Maria pode.


E pode mais. Porque olhando a homenageada na Câmara Muncipal, diante de uma população que a admira, diante de um público de várias gerações, e diante da frase de Juca de Oliveira, muitas reflexões emergem. Maria Della Costa encarna o novo lugar que as mulheres decidiram assumir em suas relações com os homens no novo século. Não se tratava apenas de uma mulher qualquer, do lar, era alguém que queria exercer uma profissão, com liberdade sexual e fora dos setores confinados as mulheres. Seu papel principal foi participar da revolução que foi a ascensão das mulheres ao espaço público.


Mas esta evolução também foi a da ascensão do boom da beleza que leva depois ao que ficou conhecido como beleza pós - disciplinar. Daí que a frase de Juca de Oliveira precisa ser contextualizada, assim como todas as belas imagens de Maria que são apresentadas em nossa exposição. Repassando as dezenas de images de Maria Della Costa e é possivel concluir algumas coisas sobre o imaginário de nossa época. A primeira é que não tem jeito: na nossa cultura, a beleza não tem o mesmo valor no masculino do que tem no feminino. Maria Della Costa irradia sua "aura" (Walter Benjamin) em todas as fotos que tira. Suas imagens em cartazes publicitários e capas de revista estão ali para afirmar: não há dúvida, ela é a encarnação do "belo sexo". Mas o que vem a ser exatamente isto? Eis um drama - e também a fonte de certo poder - que só as mulheres experimentam: o problema da importância da aparência na formação da identidade feminina. Ora, isso nunca foi de fato um problema para as mulheres do passado, e aliás, na maior parte da história humana em nada importou a aparência feminina, ela nunca foi um problema, isto é algo construido e produto das condições da emergência da modernidade. Para ser exato, em realidade, o culto da beleza feminina é produto da Renascença, que elege a mulher como a personificação da beleza, que a idolatra em poesia e arte.

Mas não é contra a concepção de beleza oriunda da Renascença que a figura de Maria Della Costa se insurge. Porque naquela visão, a beleza física não é separada das virtudes morais. A mulher renascentista é bela porque tem beleza física e virtudes no sentido ético e moral. È a visão moderna, indústrial e superficial que transforma a beleza da mulher apenas num atributo físico. Maria Della Costa começou a ver o poder que exercia sobre os homens por sua beleza e ao mesmo tempo a superficialidade disso tudo, e começou a querer mais. Não, ela não aceitaria ser apenas um rostinho bonito. Era preciso mostrar que era uma mulher de valor, de trabalho e de guerra. E ela o fez ao construir uma obra teatral exemplar, viajando de norte a sul do país para mostrar seu teatro, para bancar seu desejo de ser alguém mais. E fez.

Mas ela teria de aprender a conviver com esse estigma por toda a vida porque ela viveu uma época em que a imprensa feminina, a publicidde, o cinema e a fotografia eram feitas em massa. A verdade é que as imagens de Maria Della Costa invadiram a vida cotidiana, as revistas e a publicidade. No imaginário de uma época era uma referência para o feminino, numa palavra, uma grande imagem de mulher. E não é a toa que esteja na raiz disto seu primeiro amor: uma autoridade dos produtos Coty, uma autoridade em produtos de beleza é quem será seu primeiro amor e quem a ensina a dominar os signos que fazem uma mulher mais real que a própria mulher. É só olhar com atenção a imagem desta postagem.


Eis algo que haviamos esquecido em todas as homenagens a Maria Della Costa: ela viveu a época em que o culto do belo sexo transformou-se em objeto das massas. E havia uma razão para isso, a ascensão irresistível da industrialização e da produção dos produtos cosméticos para todas as mulheres. De fato, Maria Della Costa viveu o que ficou conhecido como fase terminal da beleza, no sentido apontado por Gilles Lipovetsky, em A terceira mulher, época na qual "todos os antigos limites a sua expansão [da beleza] desmoronaram": fim da relação da imagem da mulher com o vício[como entre os antigos], fim das práticas de busca pela beleza apenas mais cedo, mas também mais tarde[na vida]; fim da exclusividade da glorificação da mulher pelo poetas, mas de forma absoluta, também pela imprensa, pelo cinema, pela moda e pela emergente propaganda da indústria de cosméticos.


Maria Della Costa viveu a época onde emergiu o consumo de massa de tudo o que se referisse a beleza: novas carreiras eram abertas em função da beleza da mulher, novos produtos de beleza eram oferecidos a uma geração de mulheres que saia da casa para o trabalho. Sim, ela viveu o momento de apoteose do belo sexo no imaginário da epoca. Sua biografia é repleta de fatos a respeito: de que aprendeu a se maquiar e a ter a postura adequada e de certa forma, ela mostrava a todas as classes sociais, que com um pouco de cuidado podiam irradiar infinita beleza. Faz uso do batom, que fazia sucesso desde 1918; faz uso de esmaltes de unhas, que já existiam desde 1930. Em valores, a industria cosmética, segundo dados de Lipovetsky, foi multiplicado 2,5 entre 1958 e 1968 na França. De novo: para Maria a entrada no mundo do espetáculo começa com os produtos Coty. Nada mais emblemático quando sabemos o papel do artificio na construção teatral. Que o artificio tornou-se parte do mundo, é o que se viu logo após.

A imagem glamourosa de Maria era devido ao fato de que ela dominava como ninguém a lógica concretizada pelos produtos de maquiagem. Sabia muito bem os artificios da moda, sabia construir um espetáculo ilusório, sofisticando a aparência. Nada a ver com a preocupação de hoje, que ao contrário trata de conservar o corpo jovem, de rejuvenesce-lo a qualquer custo, de fortalecer a pele e preencher o corpo da mulher com silicone. A maquiagem presente nas imagens de Maria está mais para as práticas de valor das culturas primitivas: para o filósofo Jean Baudrillard, é justamente neste sentido que as mulheres exercem sua sedução, o que para este autor é o exercício de seu poder sobre o campo campo simbólico, o campo da construção do artificio - transformar-se em mais mulher do que a própria mulher . Por isso Maria era um ser superior, exercendo poder a partir de rituais de embelezamento que não tem nada em comum com as cirurgias para manutenção da da pele e rejuvenescimento forçado praticado por muitas mulheres da atualidade.

Maria Della Costa perdeu espaço quando a magreza emergiu como valor no mercado de massa. Não bastava ser bela, era preciso ser magra. Indústrias do regime começam a faturar, clinicas de emagrecimento, emergência de dietéticos e produtos lights que obrigam as virtuais candidatas a um espaço neste mercado a emagrecerem cada vez mais, a recusarem as rugas e o peso. Maria aceita-se com naturalidade sua idade porque foi capaz de superar as coerções estéticas de sua época e sobreviver, a seu modo, a tirania da beleza.

Como Maria sobreviveu as exigências de sua destinação ao papel de objeto decorativo? A resposta é dada pela exposição: tendo uma profissão e a exercendo com competência. Quer dizer, no momento em que as antigas ideologias que reduziam a mulher ao lar eram substituidas por aquelas que queriam colocar as mulheres como mais importantes pelo seu aparecer do que pelo seu fazer, Maria quis fazer um teatro de alta qualidade e pagou o preço disso - a construção de um teatro e suportar seu fechamento, a construção de uma carreira com todas as dificuldades de produzir teatro no brasil. Ela mostrou as mulheres que era possível recusar as preocupações estéticas narcisistas que o culto da beleza impunha as mulheres - verdadeiro poder de polícia sobre o feminino. Quer dizer, frente a superação da prisão doméstica - ficar no lar - pela prisão estética - ficar linda - o que ela já evidentemente era - ela recusou ambas e não é a toda que seu talento, na voz da critica, seja elogiado não pelos papeis das mulheres lindas que de fato interpretou, mas justamente daquelas "mulheres terra", do povo, que encarnou.

A época que se seguiu viu nascer uma superexposição - através da ascensão da TV e das imagens de corpos ideais, da magreza, da cultura do consumo vinculado a normas estéticas do corpo, forma de um poder disciplinar (Foucault) aplicado ao feminino. Talvez, ao fazer sua carreira algo muito mais importante que sua beleza, Maria Della Costa tenha nos ensinado que é preciso pensar numa "política da beleza". Será real ou ilusório o poder que a beleza dá as mulheres exercer na sociedade? Se as feministas tiverem razão, a busca da beleza feminina só serve para ratificar o quanto são submissas ao desejo dos homens. Se os filósofos tiverem razão, o feminino sempre será superior ao masculino pela capacidade de preservarem seus rituais. Maria não tem vergonha dos arranhões da idade, que para outras geram complexos de inferioridade, vergonha, efeitos das imagens superlativas das mulheres veiculadas pela mídia. Vivemos uma epoca em que para as mulheres obcecadas com a aparência, cirurgias de implante em seios podem ser feitas aos 18 anos "Não há nehum poder real da beleza feminina; ao contrário, é esta que exerce uma tirania implacáavel sobre a condição das mulheres, diz Lipovetsky.

Maria está de volta para dar uma lição as mulheres: o culto da beleza não pode ser um obstáculo para a autonomia da mulher, nem para a sua luta pelo crescimento profissional. A mais bela e competente atriz brasileira, Maria já exerceu cargos públicos e hoje administra seu hotel com orgulho. Sem dúvida, o exemplo de Maria ajudou a provar que as mulheres tem mais opções profissionais que as virtudes da beleza sonhariam em conceder.

Um comentário:

Luis Gomes disse...

Justa homenagem. Abraço