domingo, 23 de maio de 2010

Capitalismo Parasitário

A atual expansão do crédito para aquisição de imóveis e automóveis é um indicador da voracidade do capitalismo em buscar novos horizontes de expansão. De fato, não há símbolo maior da ganância do capitalismo do que o cartão de crédito.Antigamente, quando queria-se algo mas não se tinha dinheiro para pagar, a solução era apertar o cinco, poupar, economizar na caderneta de poupança, numa paciência de Jô.

Mas aí o bancos tiveram uma grande idéia, a do cartão de crédito, pelo qual é possível inverter a ordem do mundo: desfrutar agora para pagar depois e caímos nela, já que a promessa de que era possível não adiar a realização dos desejos é simplesmente impossível de resistir. O preço é pesado, já que, de fato, sempre chega a hora de pagar.
Até aí, a história é conhecida por todos. Mas eis que Zigmund Bauman, em Capitalismo Parasitário (Zahar), lembra que não é do interesse do emprestador que o lucro se realize apenas uma vez com cada cliente. Ao contrário. As dívidas devem ser transformadas em fonte permanente de lucro. Fazer mais e mais endividados em crédito, garantir a reprodução de pessoas endividadas, eis o que é parasitário no capitalismo: a expansão do crédito. “A ausência de débitos não é o estado ideal.Os bancos credores realmente não querem que seus devedores paguem suas dívidas. Se eles pagassem com diligência os seus débitos, não seriam mais devedores”.


A clareza de Bauman, presente em seus escritos, renova-se aqui em Capitalismo Parasitário. Bauman revela o novo pesadelo do capitalismo: o cliente que paga seus débitos. Incrivel a inversão, saímos de uma sociedade calvinista, praticamente organizada em uma agenda de recursos, para outra no qual o que mais importa é a disfunsão do sistema financeiro - não pagar agora, para pagar mais juros depois; não sair das dividas, mas ser atraido para elas a cada instante. E eis você de novo, no shopping, entulhado-se no cartão. E, aí, Bauman, leitor de Bourdieu, afirma que para isso é preciso cultivar hábitos, como acostumar as pessoas a gastar dinheiro que ainda não ganharam, manter a dívida no “rotativo”, pagando apenas uma parte e refinanciando a diferença. Se você tiver alguma poupança, será convidado a pedir empréstimos como uma ‘vantagem a mais”.

Quando vemos bancos oferecerem crédito aos jovens, dito "cartão universitario" vemos a ponta de um perigo. Como no filme Matriz, é a nova colheita que se prepara, criar uma raça de devedores eternos, perpetuando-se o “estar endividado”, como assinala Baumann. Deve ser parte de uma educação financeira, não lidar com o cartão de crédito, como muitos programas propõem, mas justamente evita-lo a a exaustão. Se o capital começar tiver sucesso em endividar em sua fúria os mais jovens, estaremos entrando num campo perigoso, pois eles também são a futura elite política. Para os governantes, deve ficar a lição de que mais crédito, ou produção de indivíduos individados, não é sinônimo de prosperidade econômica e democracia.

Um comentário:

Hendrick Andrade disse...

Interessante seu texto porem não vejo que saimos de uma sociedade calvinista, pois acho que nunca estivemos em uma.