sábado, 21 de abril de 2012

O plenário como pedagogo


Zero Hora do último domingo fez uma extensa matéria sobre a Câmara Municipal de Porto Alegre. Para conhecer o que a Câmara faz  recomendo a leitura de “Dez Anos de Leis e Ações Municipais” obra lançada pelo Legislativo no ano passado com quase trezentas páginas nas quais pode ser visto exemplos do trabalho dos vereadores e suas ações na construção de políticas públicas na cidade. Ela é distribuida gratuitamente pela Câmara Municipal. Vá lá e pegue seu exemplar, é grátis.

O ponto de partida da matéria é que o Plenário é uma sala de aula. Não, não é, não no sentido ali atribuído. Você até pode usar a comparação para explicar o funcionamento do plenário para crianças,  mas ela não cabe numa matéria à altura de ZH. O plenário é o espaço de debates superior da cidade. No seu interior a produção de legislação responde a necessidade que nossa sociedade tem de pré-selecionar sua agenda de opções, numa palavra, o que pode e não pode fazer. Os vereadores fazem escolhas no plenário antes que os cidadãos possam fazê-las e a legislação produzida ali separa o reino da viabilidade prática do das possibilidades teóricas dos cidadãos. Quer dizer, estabelece o conjunto de restrições que os individuos necessitam seguir na sociedade para viver melhor. Não há nada nisso que lembre uma sala de aula.

O problema da comparação é que ela corre o risco de suscitar no leitor aquilo que Jacques Ranciére denominou de “ódio `a democracia”: ela incita no cidadão a idéia de que, se nossos vereadores são capazes de perder todo o seu tempo com “bobagens”- o que reputo, não é verdade - é porque eles não merecem o nosso respeito, primeiro passo para o nascimento do sentimento de ódio para com nossas instituições. O problema da comparação é sugerir ao leitor que a socialidade politica - a presença da ironia e da brincadeira – seja a própria natureza da vida do plenário, e não é. A natureza do plenário é fazer leis para a sociedade. O "papo jogado fora", na expressão de Michel Maffesoli, ocorre ali como em qualquer instituição - inclusive na redação de ZH - e tem a função de tornar sólidos os vínculos entre os atores, nunca substituindo a sua função principal. 

Paradoxalmente, a matéria atirou no que viu e acertou o que não viu. É que, se a metáfora da sala de aula pode ser objeto de crítica, a necessidade da educação no parlamento é uma certeza. E há inúmeras ações que o parlamento faz para que o cidadão possa conhecer suas leis, seus direitos  e que a matéria poderia ter ilustrado e não o fez. As instituições políticas vivem hoje um processo de valorização de seu papel educativo: “na Câmara que você não vê”, ações dão testemunho que o legislativo vem cumprindo seu papel de colaborar na educação da sociedade para a política: através do atendimento de escolas, realização de cursos, seminários, exposições, publicizando seus gastos e todas as etapas do processo legislativo - via internet - é que a Câmara assume o seu papel educativo em seu campo de influência. O plenário é uma sala de aula sim, mas não no sentido sugerido pela matéria, mas pelo ato educativo que ocorre cada vez que há participação da comunidade no seu interior. A matéria descreveu ricamente tais processos no âmbito das comissões,  mas ficou-nos devendo a descrição de tais processos no plenário - e eles ocorrem. Ali, no espaço da política em estado puro, comunidades inteiras aprendem a fazer política na prática. Nesse instante sim, transformam o plenário numa sala de aula – na sua melhor concepção. O plenário é um pedagogo.     

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