sábado, 19 de março de 2011

O dia internacional da mulher e o carnaval


Eu não sei porquê as feministas de plantão não reprovaram o fato de que o Carnaval caiu durante a Semana da Mulher. Cair a data no carnaval foi muito azar. Pois não há nada mais contraditório do que o fato da data que serve para a comemoração da luta pela independência feminina coincida com a festa que tem como característica principal a transformação do corpo da mulher em supremo objeto de consumo.

Se não vejamos. Como se sabe, a data é referência ao dia 8 de março de 1857, quando operárias de uma fábrica de tecidos de Nova Iorque fizeram uma grande greve para reivindicar melhores condições de trabalho. Redução na carga diária de trabalho para dez horas, já que as fábricas exigiam 16 horas, equiparação de salários das mulheres com os homens e principalmente - isto é fundamental - tratamento digno dentro do ambiente de trabalho. A manifestação foi reprimida com total violência e as mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada. Com a data, entre outras coisas, além de debates, busca-se combater tudo o que desvaloriza a mulher.


O Carnaval desvaloriza a mulher? Para carnavalescos e o senso comum, ao contrário, é o lugar do seu espetáculo, festa onde as mulheres ocupam um lugar central. Ala das baianas, Porta-bandeira, mas principalmente passistas, muitas passistas, o que segundo seus organizadores “é a mulher brasileira oferecendo seu corpo à beleza da festa”. Espaço no qual invertem-se papeis sociais, como aponta a antropologia de Roberto Damatta, o fato é que desde que Pascal Bruckner e Alain Finkielkraut publicaram a obra A Nova Desordem Amorosa (Ed. Brasiliense, 1984) e Jean Baudrillard A Sedução (Ed.Papirus, 2001) , as coisas não foram assim tão simples.Bruckner & Finkiekraut apontaram que no Capitalismo, nada é mais natural do que o "mercado dos corpos", esse universo de avaliações que homens e mulheres fazem sobre si e sobre seus corpos mediados pela mercadoria. Baudrillard descreve o campo simbólico que envolve o feminino, para além do corpo e do sexo e que traz a tona o seu poder: "o homem detém o poder real, a mulher detém o poder simbólico”. Herdeiros do Maio de 68, a tônica é posta no desejo e não no corpo. O que eles querem criticar é o que traz para as relações humanas a ideologia do Capital "não há mercado maior do que a mesa de um bar onde corpos expõem-se para o olhar objetal do outro". Fim da troca, nascimento das relações de objeto.



Algo semelhante ocorre no Carnaval com a superexposição da mulher. A questão foi colocada originalmente por Georges Bataille em O Erotismo (LP&M, 1989): no abismo simbólico que separa o erotismo masculino do feminino, o feminino é superior, mas o masculino impõe sua hegemonia. Para Brucker & Finkielkraut, efeito da "maldição da descarga ligeira" (sic). O que ambos autores criticam é a vertiginosa lógica de exposição dos corpos das mulheres em nossa cultura, signo de uma sexualidade feminina construída para o deleite do olhar masculino. É a contradição do Carnaval em relação à mulher: não se pode olhar alegremente para a câmera e desvelar o corpo impunemente. O simbólico pede: um pouco de pudor, por favor!(Baudrillard).



Azar é azar, mas não se deve aceitar a coicidência sem refletir. No século XIX, tentou-se silenciar as mulheres queimando seus corpos. Hoje aceita-se sem pensar que o Dia da Mulher e as festividades do Carnaval possam ser conciliados - queima-se uma idéia.Dia da Mulher? Ôba, onde estão as mulatas?

Um comentário:

centrodememoria disse...

parece que nosso "coraçaõ cordial" também bate no peito das feministas.