sexta-feira, 31 de maio de 2013

Sobre as políticas de museus

Passada a 11ª Semana Nacional dos Museus, como podemos desenhar o mapa da área?  Promovida pelo Instituto Brasileiro dos Museus (IBRAM) com o tema “Museus (memória+criatividade) = mudança social”, a semana acontece anualmente para comemorar o Dia Nacional dos Museus (18/5). Nela, o governo assume para si um belo discurso onde é enfatizada a importância da atividade por “dar sentido à existência” etc, etc. Por detrás da iniciativa esconde-se o fato de que o governo lucra políticamente com a divulgação das iniciativas de museus carentes de todo o pais nos quais não investiu recurso algum e pouco faz para a resolução dos verdadeiros problemas da área.

A verdade é que os museus são afetados cada vez mais pelas características que marcam as demais políticas públicas em nosso país. Primeiro porque o governo prefere adotar as políticas populares para a área do que as impopulares, que sofrem resistência. Prefere gastar em divulgação, que é bem vista pela comunidade, do que em desapropriar próprios locais da iniciativa privada abandonados para servir de sede para museus que vivem de aluguel. Segundo porque a politica pública para museus é movida por crises como qualquer outra instituição pública. No dia-a-dia dos museus, seus técnicos tem atuado mais como “bombeiros” apagando “incêndios” do que formuladores de políticas de longo prazo, enquanto que o governo dá pouco valor às políticas que visam prevenir tais crises nos museus. Por exemplo, ao invés de prever no Orçamento e no Plano Plurianual mais recursos para a área, prefere deixar que seus funcionários invistam de seu próprio bolso para produzir exposições. Esse modo de ser não é privilegio de um nível de governo, atravessa todo o sistema, dos estados aos municípios.

Eventualmente, como em qualquer outra área, as crises na área cultural e dos museus levam a mudanças nas suas lideranças e gerentes, mas suas causas continuam sendo tratadas de maneira inadequada pelos sucessivos governos. E o ponto é sempre o mesmo: falta investimento em pessoal qualificado e investimentos em reforma de nossos museus, o calcanhar de Aquiles de nossas políticas da área. Pior, nossos museus começam a integrar o jogo politico de curto prazo da distribuição de cargos para garantir o apoio politico quando são os interesses de longo prazo que deveriam ser visados.

Finalmente, os museus frequentemente são vitimas das politicas adotadas por outros órgãos de governo. Por esta razão é tão nefasta para a área a política de contenção de déficit orçamentário ou a politica de tributação para importação de bens necessários à recuperação de suas obras, etc. Contratar um restaurador especializado é a maior dificuldade; adquirir com recursos públicos um acervo privado de interesse social nem pensar. Assim, nesta semana dos museus, os profissionais da área tem dois objetivos a perseguir. O primeiro é que devem lutar por políticas públicas para a área mais eficazes, além de recusar a política de "apagar incêndios" tão comum à área. O segundo é que devem discutir se não estaria na raiz dos problemas dos museus o fato de que as vezes nem os diferentes órgãos do governo se entendem, o que torna difícil, as vezes impossível, a mediação dos objetivos políticos e dos procedimentos administrativos gerais do Estado à natureza e necessidade da produção museal na contemporaneidade.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

O museu como uma pilha

No filme Matrix, os humanos são baterias onde o cérebro é ligado a um mundo onírico mas cujos corpos ficam em cápsulas que alimentam máquinas que os controlam. Esta é a imagem que vem a mente no Dia Nacional dos Museus. Na nossa Matrix museológica, os museus são as baterias que vivem a alimentar uma máquina que chamamos Estado. Nesse universo fantasmático, os museus servem para o Estado dizer que tem políticas de museu quando não tem. A nível federal, a política de museus estabelece a concorrência pura e simples pelos escassos recursos através de Editais, quer dizer, submete-os a mesma matriz corporativa na qual Thomas A. Anderson trabalha, metáfora do controle diabólico da IA, aqui, do Estado; a nível estadual, cada museu é uma Nabucodonossor que busca sobreviver num universo hostil habitado por sentinelas, as "lulinhas" do filme, aqui, a falta de pessoal, de recursos financeiros e equipamentos.

No filme os personagens sempre buscam a “saída viável”, expressão dada ao modo de como sair da Matriz; aqui é a busca feita por nossos museólogos pela "saída viável" para escapar da situação de abandono pelo Estado. Basta um olhar ao redor: nossos melhores acervos de jornais convivem com teias de aranha, nossos melhores quadros aguardam restauração e nossas melhores esculturas públicas encontram-se abandonadas em depósitos. Que dia de museus é este para comemorar? É que, como no filme, o mundo dos museus é um mundo de sofrimento: assim como é inconcebível um mundo justo se os humanos padecem, como os museus podem comemorar se passam o dia a sofrer?

Nossos museus precisam de um oráculo. Ele diria algo do assim: “- Vocês estão demasiado preocupados com o passado. Voltem-se para o futuro." Com isto ele quer questionar os processos de galopantes de digitalização dos acervos das instituições públicas. Acervos do Poder Executivo, Legislativo e Judiciário hoje estão cada vez mais digitalizados. Que acervos estamos legando para o futuro? Quem garante a sobrevida de fotografias e de processos que deixam o suporte papel para o suporte digital, e portanto, passam a ser gravados em DVDs que cedem ao menor risco, ou preservados nos HD dos computadores que cedem ao menor vírus? Que modernização dos museus é essa que cede ao acidente (Paul Virilio)? É esta a política de preservação de acervos públicos para museus que queremos?

O hipotético oráculo, comendo um biscoito, ainda diria: “- Em segundo lugar, vocês, museólogos, no seu dia, sequer estão discutindo suas práticas de museu.” É verdade: banners gigantes de fachada e telas de TV nunca foram garantia de boa exposição. Neste mundo pós-moderno, cobram cada vez mais de nossos museólogos a garantia de experiências sensíveis cada vez maiores e de macro-exposições que levam, paradoxalmente, a uma perda da memória no interior do próprio museu. Que estética de museu é esta onde a forma é mais importante que o conteúdo?

Os museus devem discutir no seu dia se querem ou não atender ao desejo dos novos tempos de hegemonia da imagem, do entretenimento instantâneo, do culto politico, da valorização do mercado e do exibicionismo de macroexposição típicos da indústria cultural capitalista. Museu não é lugar para vender souvenir, é espaço de memória e educação, ele tem algo a dar que não pode ser oferecido por nenhum outro meio. É isso que os museólogos precisam discutir nesta data.

O Dia Internacional do Brincar

Dia 28 de maio é o Dia Internacional do Brincar. Instituído pela Unesco com o objetivo de resgatar e incentivar o brincar na infância e a importância da brincadeira como momento cultural, seu pressuposto básico é que brincar é aprender. Direito consagrado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, a data nos impõe uma reflexão: como comemorá-la quando as praças estão vazias devido a violência, seus brinquedos sucateados e as necessidades de brincar da infância parecem reduzir-se a satisfação proporcionada por brinquedos oferecidos pelo mercado? A verdade é que a memória do brincar encontra-se esmaecida pelo excesso de estímulos que fazemos à infância, produto dos inúmeros brinquedos à disposição, mercadorias que impelem as crianças a adentrar cada vez mais cedo na lógica consumista e adquirir o hábito de substituir seus brinquedos como uma mercadoria qualquer.

O brincar, a brincadeira e o brinquedo são integrantes de um mesmo universo de acesso da criança ao mundo mas, no atual, a infância e o brincar são vítimas da artificialização de nossa existência. As novas configurações do brincar adaptam-se aos novos tempos mas a medida em que as crianças passam a exigir cada vez mais brinquedos novos, deixam escapar a dimensão do sonho e do devaneio que a brincadeira possibilita. O que é revolucionário no brincar é que para fazê-lo, é preciso suspender o tempo, praticar novas sociabilidades, o que jogos virtuais roubam das crianças. Para que as crianças possam gozar o dia do brincar, é preciso que os pais questionem a atitude que é oferecer em excesso os novos objetos de desejo da criança. É preciso que julguem porque se nas brincadeiras tradicionais a fantasia se revela no brincar, nas modernas, como nos games, a fantasia é pré-programada no roteiro dos jogos de computador. Fim da brincadeira como mimésis, trabalho psíquico que exige que a criança invente personagens, vista-os imaginariamente com as características que bem entender, experiência que é substraída pelos jogos virtuais. O que acontece quando a tecnologia é hegemônica nas formas do brincar?

Por isso acredito que a verdadeira forma de resgatar o significado do dia do brincar é, por parte dos pais, refletir sobre a importância de retomar a arte de contar histórias (Walter Benjamin), gesto que inspira a imaginação da criança à prática do brincar. Frente a emergência da tecnologia nos brinquedos, é preciso estimular o uso daqueles feitos como arte pelas crianças, elaborados por suas próprias mãos, hoje substituídas por artefatos da indústria cultural. Por parte dos educadores, a brincadeira também deve ser um objeto de preocupação. Ela cumpre seu papel pedagógico quando feita com intencionalidade, quando o jogo é um modo de ensinar e aprender, a “isca”(Tânia Fortuna) para fisgar o interesse do aluno, mas não de uma forma tradicional e autoritária, mas como espaço de prazer e espontaneidade sem cair no hedonismo. O que significa que os adultos devem redescobrir sua criança interior para ajudar a criança a comemorar seu dia do brincar, não para agir como uma criança, mas para compreênde-la em suas ricas dimensões.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O legado dos "mestres sansei" da esquerda

Se eu me arrependo?Não, não creio. Tenho plena consciência de que a causa que abraçei revelou-se infrutífera. Talvez não devesse ter seguido esse caminho. Mas, por outro lado, se os homens não cultivam o ideal de um mundo melhor, eles perdem algo. Se o único ideal dos homens é a busca da felicidade pessoal, por meio de acúmulo de bens materiais, a humanidade é uma espécie diminuída


Eric Hobsbawn


Deixaram-nos em pouco menos de quatro meses dois dos maiores pensadores de esquerda da atualidade, Robert Kurz e Eric Hobsbawn. A morte do primeiro, em 18/07, foi anunciada laconicamente nas páginas da revista Exit! e pouco repercutiu no Brasil; o segundo, falecido em 1/10, mais conhecido no meio universitário, teve razoável repercussão, mas a falta de ambos, sem dúvida, é de grande tristeza para a esquerda. Acompanhei à distância quando o cientista político Fernando Schüller, então Diretor do Centro Cultural Usina do Gasômetro, trouxe Hobsbawn à Porto Alegre em 1992 em um evento de grande repercussão e conheci pessoalmente Kurz quando organizei sua vinda à Porto Alegre em 1997 para uma Conferência Internacional na Câmara Municipal. Com plenário lotado, uma aula da melhor critica do Capital.


Minha geração acostumou-se a leitura de suas obras nos anos 80. Lembro-me de descer a Rua Garibaldi em direção à Rua Osvaldo Aranha, no Bairro Bom Fim, tradicional reduto boêmio em Porto Alegre, de madrugada discutindo Kurz e sua obra clássica “O colapso da modernização” sem ser assaltado - algo improvável hoje em dia- mas eram seus artigos e criticas que fazia ao capitalismo que, atualizando o pensamento de Marx, tornavam sua abordagem insuperável. O autor de "Ultimos Combates" e “Com todo o vapor ao colapso” fazia análise da economia sob o ponto de vista marxista, mostrando as novas formas de realização do conceito de fetiche da mercadoria. Kurz retornou a Porto Alegre em 2009 para participar do Fórum Social Mundial com a ideia de que a esquerda precisava fazer sua autocrítica: ”A crise existencial da esquerda de hoje consiste justamente no fato de ela não ter conseguido transformar o marxismo e reformular a crítica da economia política dentro dos padrões do século XXI. Pois naturalmente não existe volta para os paradigmas de uma época passada”, dizia. A esquerda perde uma voz que significava o verdadeiro espírito da critica capitalista.


Hobsbawn tinha uma obra extensa reconhecida e nos corredores universitários lia-se muito sua trilogia composta por "A Era das Revoluções", “A Era do Capital” e “A Era dos Impérios”, mas como assinala Correa, da mesma forma que Kurz, o que chamava atenção mais uma vez eram seus artigos de circunstância, que o fizeram também deixar os limites do espaço acadêmico para exercer uma influência notável no campo social. (1) Talvez a grande diferença entre Kurz e Hobsbawn é que enquanto o primeiro defendia o ensaismo e a critica sociológica como os grandes instrumentos de atuação politica do intelectual, o segundo ensinou a uma geração de historiadores que estes podiam serem intelectuais no campo da política. É que para Hobsbawn não se é historiador sem um projeto para a sociedade, sem fazer uma ponte entre o passado e o presente. O historiador como intelectual é alguém engajado nos problemas da “cité”, daí o tema do presente emergir na obra de Hobsbawn. Para ele era inevitável a experiência pessoal quando falamos de nosso próprio tempo, o que é uma vantagem dizia, para aqueles que como ele viveram um longo período de vida, já que eles poderiam saber, mais do que ninguém, como as coisas mudaram.



Com sua morte recente, Hobsbawn merece uma atenção especial não apenas por seu legado como historiador notável que foi, mas pela sua contribuição política ainda pouco conhecida. Ele nunca renegou suas paixões políticas e compromissos ideológicos, ao contrário, dedicou grande parte de sua vida à esperança da Revolução Comunista. É que a leitura dos trabalhos de Marx como “O 18 Brumário” foi fundamental em sua obra: "Mesmo que eu achasse que grande parte da abordagem da história por Marx precisasse ser jogada no lixo, ainda assim continuaria a levar em consideração, profunda, mas criticamente, aquilo que os japoneses chamam de um sensei, mestre intelectual, para quem se deve algo que não pode ser retribuido. Acontece que continuo considerando(...)que a concepção materialista de Marx é, de longe, o melhor guia para a história". Criticando o que chamava de marxismo vulgar baseado numa interpretação economicista da história (2) afirmava que“A história necessita de distanciamento, não apenas das paixões, emoções, ideologias e temores de nossas próprias guerras religiosas, mas também das tentações ainda mais perigosas da identidade” Hobsbawn assume um comprometimento político explicito mas não quer misturar suas esperanças com análise histórica. Por isso sua atuação política ocorre ocupando os espaços nos periódicos e depois, como muitos outros de sua geração, nos meios de comunicação, o que levou a Prospect Magazine, em sua edição de novembro de 2005, a aponta-lo com a 18ª personalidade mais influente do planeta. Na verdade, ele nunca considerou que tivesse feito grande coisa como militante do Partido Trabalhista mas foram seus artigos sobre este partido e a política inglesa que provocaram enorme debate em seu pais. Escrevendo paradoxalmente uma história com distanciamento mas politicamente engajada, Hobsbawn encontrou sua maneira de fazer política enquanto historiador. Ele era um marxista convicto, mas não se tratava de expor seus projetos sociais mas de transformar a realidade por meio de uma ação concreta, i.é, expor uma estratégia viável para conquistar o poder numa situação real. Esse espirito critico influencia profundamente Robert Kurz e o inspira a acompanhar em detalhe os acontecimentos contemporâneos, principalmente, quando analisa em detalhe os movimentos das grandes corporações, crítica suas estratégias de marketing e as formas de tomada das consciências. Como para Hobsbawn, para Kurz a chave do processo encontra-se no período pós-segunda guerra mundial e sua conclusão é angustiante: “Foram atingidas pela crise as bases comuns de uma história de modernização de duzentos anos ou mais. Aqui trata-se de uma crise comum ao Ocidente e ao Leste Europeu, que não surge simplesmente do conflito de sistemas e seus critérios, mas que vem de muito mais fundo” Para Kurz, o capitalismo, apesar de ter sobrevivido, será a próxima vítima, e o marxismo, sua consciência crítica, revela-se parte daquilo que está em crise.



Hobsbawn também pensava assim. Sua fase politicamente mais produtiva deu-se em um contexto pouco favorável. A crise econômica de 1973 propiciou a expansão das idéias neoliberais, foco da crítica de Kurz, principalmente na Inglaterra de Thatcher(1979), nos Estados Unidos de Ronald Reagan(1980) e na Alemanha de Khol (1982), uma guinada planetária à direita baseada na livre concorrência e na defesa da limitação da interferência do Estado. Para a esquerda, uma catástrofe. Para a direita não se tratava apenas de combater a sociedade do bem-estar social, mas o próprio Comunismo - é que a sociedade de bem-estar social era considerada, de certa forma, uma subvariedade do comunismo. O que Hobsbawn notou com astúcia é que o triunfo da ideologia neoliberal se fez em governos demasiado falidos para lhe oporem resistência. O que fez o autor de "A Era dos Extremos" nesse contexto? Propôs, em uma série de artigos publicados pela Marxism Today entre 1978 e 1988, uma reforma do próprio Partido Trabalhista inglês, então a principal alternativa ao thatcherismo. Além disso, Hobsbawn estava preocupado com o debate internacional sobre o papel da esquerda declarando-se filiado à tradição cuja base é a obra de Marx, Lênin e as resoluções do VII Congresso Mundial da Internacional Comunista: o combate ao facismo e a defesa da luta política das frentes populares “a falta de confiança é o fantasma que assombra a esquerda“, dizia. Os anos passam e ele continua cada vez mais crente na ideia socialista: ”se não acreditamos que a busca descontrolada de vantagens particulares, através do mercado, produz resultados anti-sociais, obviamente catastróficos; se não acreditamos que o mundo hoje clama por controle e gerenciamento públicos e por planejamento dos negócios econômicos, então não deveríamos nos considerar socialistas”. Na mesma ocasião, Kurz é o enunciador do conceito mais temido por dez entre dez economistas, o de crise da sociedade do trabalho. Diz Kurz: “Lembro-me muito bem como foi preocupante quando na Alemanha, no início da década de 80, o desemprego ultrapassou pela primeira vez o limite de um milhão de pessoas. Hoje, esta cifra seria uma notícia de sucesso”.A revolução de Kurz é mostrar que o desemprego que se vê por toda a parte não se trata de um fenômeno cíclico mas normal do movimento capitalista, o fato de que já vivemos o colapso do trabalho em escala planetária. “Isto quer dizer que as cifras do desemprego não se reduzem na fase de recuperação cíclica da conjuntura, mas ao contrário, elas ainda se ampliam”. E, finalmente: “Hoje parece, ao contrário, que entra em crise o processo de transformação do trabalho em dinheiro, o que Marx chamava de trabalho abstrato, isto é, o dispêndio de cérebro, nervos, músculos na forma social de dinheiro, e assim, na reprodução do homem no contexto de trabalho-dinheiro-consumo de mercadorias – essa conexão do trabalho com o dinheiro é histórica e de forma alguma supra-histórica”.



Hobsbawn viu que o neoliberalismo estava vencendo porque sequer o Partido Trabalhista inglês estava conseguindo sair de sua estagnação no final dos anos 70. Ele viu que somente transformando-se em um amplo partido popular teria-se alguma chance de combater o thatcherismo na Inglaterra. Propôs então as quatro metas para o Partido Trabalhsta: convencer as pessoas de que elas queriam o que o Partido representava; mostrar que a política do Partido Trabalhista não era apenas desejável, mas realista; que o Partido Trabalhista representava efetivamente todos os trabalhadores e que o trabalhismo tinha esperança na Inglaterra. Em 1987, vendo que a posição do Partido estava melhorando, mas não o suficiente, enunciou sua última estratégia: “votar no candidato que estiver mais bem colocado para afastar o candidato conservador. Quem quer que diga outra coisa, pois mais sincera que esteja, estará traindo o povo britânico, sem falar na democracia e no movimento trabalhista”. Nessa época e um pouco depois, como seguidor e contestador do marxismo, Kurz dedica-se aos vinte volumosos estudos do grupo da revista Krisis, anteriormente chamada de Marxistiche Kritik, publicados a partir de 1986. Torna-se escritor de grande sucesso e interlocutor privilegiado de expoentes do pensamento alemão como H.M Enzesberger, Ernest Lohoff e Peter Klein, com quem vem discutindo os conceitos marxistas de "fetichismo" e "valor". Inspirando-se em Marx, Kurz reconhece a lógica do valor como o centro da atual crise do capitalismo - aliás, ele foi o primeiro a antecipa-la. Critico ferrenho do processo que levou a reunificação das duas Alemanhas, analista em profundidade das causas da crise Argentina, e finalmente, um brilhante analista das formas de apropriação da subjetividade pelo capitalismo, suas teses enfatizam a idéia de que a história humana tem sido a história de relações fetichistas que não possibilitam a construção de nenhum sujeito social.



Enquanto pipocavam estudos fragmentários sobre a evolução do capitalismo na obra de Kurz, ainda faltava no cenário literário uma obra de peso sobre o século XX, o que Hobsbawn realiza com a publicação de “A Era dos Extremos”, onde através de um balanço de suas maiores expressões no período - os regimes políticos, sociais e econômicos - oferece um panorama critico dos efeitos gerados pela crise do capitalismo liberal burguês iniciado em 1914. Sua história do século XX mostra que o capitalismo atravessou uma fase de colapso até os anos 40 e uma posterior, com o florescimento do capitalismo liberal e um retorno a crise, que nos anos 80 que leva a queda do império comunista, i.e, o que caracteriza sua obra é a dialética da relação capitalismo-comunismo. Com notável astúcia, ele observa que a sociedade capitalista burguesa gera seu oponente, a sociedade comunista, e que esta termina por salvar o próprio capitalismo após a segunda guerra “o que quer que Stálin tenha feito aos russos, ele foi bom para o povo comum do Ocidente”, diz Hobsbawn. O tom simpático à Revolução Russa foi criticado por inúmeros historiadores como K. Pomiam e M. Mann: para Hobsbawn “o marxismo oferecia a esperança do milênio”.




A morte de Kurz e Hobsbawn deixam a esquerda de luto. Hobsbawn, mais do que Kurz, fez a mais perfeita combinação de paixão política e projeto político. Kurz, mais do que Hobsbawn, fez a mais completa dissecação dos processos simbólicos de alienação do capital. Ambos partiam de sua convicção do valor da obra de Marx; ambos veem o quadro de crise de sua época como fortalecedor de uma causa – a causa perdida de que fala Slavoj Zizek - a necessária substituição de um sistema por outro; ambos ajudaram a recolocar a critica das fronteiras entre capital e trabalho, existência e aparência e realidade e a simulação no campo da história, balizando leituras para a guerra do Golfo, microeletrônica e as novas mídias - em suma, garantiram à esquerda de que é preciso fundar um novo pensamento para compreendermos a globalização, caso contrário, estaremos condenados a “um mergulho numa era de trevas”. Seu duplo desaparecimento deixa a esquerda órfã de um pensamento original e criativo que assumia a tarefa de atualizar o marxismo. Não podemos esquecer sua lição, a que devemos procurar na critica sofisticada do capitalismo do tempo presente a atualização dos conceitos de ideologia e de fetichismo de Marx. E desvelar a alienação capitalista é cada vez mais urgente no momento em que vemos a emergência do exemplo chinês, onde o capitalismo descobre que é possível acumular abandonando por completo a noção de direitos humanos, e o pior, que isto está se tornando o grande ideal da direita. É preciso continuar deste ponto em que pararam, urgentemente.


Notas

(1) Cfm Priscila Gomes Correa. História, Politica e Revolução em Eric Hobsbawn e François Furet. São Paulo, FFLCH, PPG História Social, 2006. Dissertação de Mestrado orientada por Modesto Florenzano. Este texto deve em muito ao retrospecto de sua autora sobre o contexto de Hobsbawn.


(2) Cfm Ruy Belém de Araújo.Eric Hobsbawn - as lições do tempo. Revista da Fapese, v. 4. n1, p; 5-14, jan/jun 2008

quarta-feira, 25 de julho de 2012

"Nos desejamos aquilo que vemos"

A discussão sobre a divulgação dos salários dos servidores não tem dado atenção a um potencial de violência simbólica que o ato encarna. Ela priva o servidor público de mostrar sua história, de revelar o caminho honesto que o levou a receber o seu salário, confunde o bom servidor com os corruptos e provoca a discórdia social.

 


 

Todos sonham com o que os outros têm. Os servidores que conquistaram seu salário por seu mérito e trabalho a partir de agora vão ser desvalorizados por uma opinião pública que diz que seu trabalho não vale o que recebem. Ela esquece as diferenças e competências individuais, os Planos de Carreira e as vantagens obtidas pela luta dos servidores públicos como categoria social, numa palavra, o direito do trabalho. Sua raiz é a exigência de julgar que a divulgação dos salários passa a impor, a comparação que cada um faz a partir de agora para saber quanto vale o seu trabalho comparado com o do servidor. Ao invés de combatermos os salários que ultrapassam os limites legais, agora todos os salários dos servidores tornam-se objeto de comparação. Isso é um problema.


 

É que o cidadão comum se sente diminuído quando a comparação salarial lhe é desfavorável. É um mecanismo de defesa do cidadão que age pela desvalorização e busca rebaixar o salário do servidor público ao "nível do mar" _ nível que foi estabelecido pela exploração do Capital, o verdadeiro inimigo. Ao sentir-se diminuído com o quanto conseguiu empreender, ao reagir emocionalmente, o cidadão deixa de lutar para que todos tenham o nível salarial que considera bom e passa a acusar os salários dos servidores. Eles são acusados de três culpas: "será que você não percebe? você ganha mais do que eu!", acusação que resume a condenação social que transforma o salário do servidor em objeto de um julgamento social de valor; "não receba mais do que eu!", acusação que encarna a desvalorização ao servidor pelo cidadão, que procura diminuí-lo; "não se rebele, aceite nosso juízo!", imposição que esquece a necessidade de colocar-se no lugar do outro e das singulares lutas de valorização profissional.


 

Mas que mal os bons servidores fizeram à sociedade para merecer este julgamento? Os servidores que têm seu salário revelado não fizeram absolutamente nada, ao contrário, lutam dia após dia para fazer um serviço exemplar, chegam a tirar dinheiro do próprio bolso para arcar com despesas do seu serviço, fazem atividades além da sua obrigação e buscam qualificação para aprimorar sua função muitas vezes sem apoio algum. Ocorre é que ao confrontar seu salário com o do servidor público, o cidadão sente um dano que ninguém praticou, um dano imaginado pelo cidadão que estabelece o que Francesco Alberoni denomina de "confronto invejoso", que corrói a sociedade e desmerece os funcionários que querem um serviço público melhor.


 

Não se enganem: a forma que nega a remuneração baseada nos valores do mérito, qualificação e tempo de serviço estabelecidos pelos Planos de Carreira é uma forma de totalitarismo. Estabelecendo uma agenda pública que desvia a atenção da sociedade dos seus reais problemas _ a saúde, a educação _, a divulgação de todos os salários oculta uma violência simbólica, a da confrontação entre cidadãos e servidores públicos honestos. Essa contabilidade de méritos e recompensas corrói a sociedade e a torna despótica: hoje os servidores revelam seus salários, amanhã abrirão suas sacolas e terão revistas em suas partes íntimas cada vez que chegarem à repartição pública. Onde isso irá terminar?

Publicado em Zero Hora em 24/07/2012
 


 


terça-feira, 22 de maio de 2012

Sobre estética das obras públicas




Mexeu com a Câmara, mexeu comigo.
O artigo de Paulo Bicca publicado na última edição de ZH Cultura descreveu o prédio da Câmara Municipal como um dos exemplos de prédio público em um espaço de precárias condições e que contribui para que nossa cidade seja, na melhor expressão, feia. Bicca tentou, mas não conseguiu, isolar o projeto de Cláudio Araújo desse contexto, mas o fato é que o entorno faz parte da Câmara e, na minha opinião, não há nada errado com eles.

O problema está na perspectiva. Bicca quis recriar a experiência do flaneur, personagem emblemático descrito por Walter Benjamin, em nossa experiência urbana. Otilia Arantes conta uma história que ajuda a entender esta posição. Ela diz que um dia Walter Benjamin explicou a Martin Buber que recebera a encomenda de um artigo sobre Moscou e que sua intenção era apresentar a cidade como se ela mesmo fosse uma teoria, sem digressão teórica, descrevendo as imagens da cidade a partir de sua “posição interna”. Isso o fez vagar por feiras de vendedores, ruas cobertas e observar os objetos da vida cotidiana. É que o “Projeto das Passagens” tinha uma pedagogia materialista, uma crítica à ascensão das mercadorias e buscava pelo potencial de transformação social. Mas aquele ainda era um projeto que via a remodelagem do mundo pela industrialização e urbanização como algo que levaria as massas ao paraíso. O mundo dos sonhos.



Bicca quer para si o lugar do flaneur portoalegrense benjaminiano. Resolveu sair e caminhar pela cidade e o que viu? Na Câmara, “um arremedo de estacionamento, em terra, esburacada e com lodo e água empoçada quando chove”. Critica o painel em frente à Câmara “que independente de seu conteúdo, jamais poderia estar aí”.O que critico na posição de Bicca? É que ele escolheu como método observar a cidade de dentro, a “posição interna” que fala Benjamin. Qual a pedagogia de Bicca? A de que precisamos de uma cidade melhor sim, mas aquela na qual os arquitetos tenham a palavra principal para “impedir de construir o que não deve ser construído”, diz. Mas quem diz o que deve ou não deve ser construído? Os arquitetos, o Estado ou a Sociedade? Se você observar o que Bicca valoriza, é sempre a paisagem clássica em detrimento da moderna, mas como tornar atual a arquitetura pública? Diz Jeudy: “Atualizar significa primeiro subtrair a temporalidade habitualmente atribuída ao passado, para torná-lo atemporal e conferir-lhe ao mesmo tempo um “poder de contemporaneidade”". Ao contrário, a leitura de Bicca nada mais faz do que adotar uma estratégia que visa desestabilizar o tempo presente, adotando uma complacência moral que diz que “o passado ilumina o presente”. Projetos são modificados sim, devido ao contextos, circunstâncias, por inúmeros atores que não apenas os arquitetos. A arquitetura pública é uma construção coletiva. O que faltou em sua concepção: a ideia que a arquitetura urbana muitas vezes é produto de uma negociação.

Ora, se você quiser descrever a beleza da Câmara Municipal de Porto Alegre, e de resto, dos prédios públicos em geral tão criticados por Bicca, é preciso observar de fora da cidade para ter uma visão melhor do que eles representam na fisionomia da cidade. Antes de Benjamin, Alan Poe. Explico.


Alan Poe escreveu o conto “O Aperto”, uma das descrições mais interessantes da cidade de Edimburgo, onde quis evitar a descrição de sua fisionomia de forma direta, a passeio, já que ”todo mundo já esteve em Edimburgo”. A história, recontada por Nicolau Sevcenko, é protagonizada por três personagens: a Signora Psyche Zenóbia, o coadjuvante Pompeu, seu velho escravo e Diana, uma cadelinha poodle. Passeando os três pela cidade, Zenóbia vê uma catedral gótica com sua torre altíssima e se vê tomada por um desejo irresistível de subir nela e vislumbrar a extensão da cidade. Ela sobe, mas não encontra uma janela, só uma abertura num imenso relógio, que expunha as horas para os seus habitantes. Ela coloca a cabeça na abertura: “O panorama era sublime. Nada podia ser mais magnífico(...)Eu me entreguei com prazer e entusiasmo ao gozo da cena que tão amavelmente se oferecia diante dos meus olhos”. O final da história? Como nos contos de Poe, os ponteiros, como imensas lâminas afundam-se no pescoço da matrona, o negro foge e a cadelinha é devorada pelos ratos. Genial.


O que interessa aqui é o método. É que para descrever a cidade, é preciso voar e correr os seus riscos. É preciso vislumbrar a cidade do céu, das alturas, observando sua situação, a sua aparência geral, fazer uma espécie de travelling do alto, a olho nu, exatamente como foi feito em diversas cenas do filme “Porto Alegre, meu canto no mundo”, de Cícero Aragon. Para descrever o papel que a arquitetura pública tem na fisionomia da cidade, como quer Bicca, é preciso procurar uma posição elevada para ver de cima a totalidade da capital. Diz Sevcenko “Olhada ao rés do chão a cidade se dissolve em fragmentos, cuja dispersão infinita é sumamente desagradável. Vista, descrita ou representada de um ponto elevado, ela se torna um emblema abstrato imediatamente apreensível”. É disso que se trata, a perspectiva do olhar.


Se você olha da Câmara de cima, o que você vê? Você não vê os estacionamentos, tão criticados em sua feiúra por Bicca, mas você vê a imensidão de uma bela área verde, das árvores que embelezam o prédio legislativo. Elas tem uma história contata por funcionários e vereadores que as plantaram, que cuidaram delas dia a pós dia, área que, no ano passado, foi cenário da reprodução do primeiro plantio de mudas recriado por alunos do projeto de educação pelo trabalho que freqüentam a Câmara. É portanto, uma área que se atualizou permanentemente e que tem uma história para contar, que ao ver pelo artigo, Bicca desconhece. O estacionamento existe sim e pode ser feio para o caminhante: é que a Câmara é um prédio inacabado que aos poucos foi finalizado. Sofreu adaptações. Ele não é produto da idealização de um arquiteto em férias, não é o prédio dos sonhos, mas algo vivo em contato com a sociedade portoalegrense. O estacionamento é um problema e uma necessidade nas cidades, e é assim também na Câmara, mas graças a ele, mais parcelas da população tem acesso ao legislativo e naquele espaço, se Bicca observasse melhor, até um bicicletário está sendo construído onde ele só vê terra esburacada, prova de que o Legislativo atende a demandas da Comunidade, no caso, os ciclistas. Mas não há nada mais belo ao redor daquele prédio e que o dignifica do que o imenso cinturão verde que o cerca. Quanto ao painel, está escrito nele apenas um convite a entrada e participação nos debates. Aquela é uma rua de grande circulação, se Parlamento não tiver o direito de convidar seu público, quem pode?.


Não Bicca, discordo, o Legislativo e seu entorno estão inseridos na paisagem da cidade. Não Bicca, discordo, o Legislativo dá o exemplo do que deve ser construído em termos de prédios públicos. Não Bicca, o prédio da Câmara não é um espaço urbano de má qualidade. Claro que há muito a ser feito em busca de uma arquitetura bem inserida, o que concordamos, mas a verdade é que a Câmara está sim bem inserida na cidade. É que, Bicca, não vivemos no mundo dos sonhos dos arquitetos, mas no mundo possível de uma sociedade onde seus atores lutam por seus direitos, e nisso, o legislativo tem um lugar fundamental.


Mexeu com a Câmara, mexeu comigo.