quinta-feira, 3 de maio de 2012

As crianças e as eleições


Ir Ktaná (em hebraico, Pequena Cidade) é uma cidade miniatura criada no interior do Colégio Israelita de Porto Alegre e que possui Prefeitura e Câmara Municipal. Grabriela Saute, Isabela Zoppas Friedman, Amir Ribemboim Bliacheris, Ilana Raizler Gandin, Rodrigo Kleiserman Blumenthal, Juliana Gonzalez Wainstein, Betina Pecis Neves, Panambi Magali Ramirez Acosta, Laura Rajchenberg e Arthur Gurski Leal são seus vereadores, alunos entre 6 e 10 anos que foram diplomados no Plenário da Câmara Municipal de Porto Alegre no ultimo dia 19 de abril.

A iniciativa emérita do Professor Ricardo Fortes e da diretora Mônica Timm de Carvalho é um dos exemplos notáveis do que se pode experimentar em termos de educação para cidadania. A experiência aponta para uma aliança necessária e urgente entre o sistema de ensino e os parlamentos municipais. Claro, você pode ter dificuldades aqui e ali de organização, mas o compromisso com a socialização política, isto, a introdução dos jovens na política é responsabilidade que deve ser compartilhada pelas escolas e poder legislativo municipal, e por esta razão, essas ações são exemplares. Por esta razão, a escola está de parabéns.

Em Porto Alegre, o presidente da Câmara, vereador Mauro Zacher (PDT) e outros vereadores, tem renovado o compromisso do parlamento com as escolas. A formatura do último dia 19 é dessas ações: mesmo com uma agenda cheia que incluía até a CPI do Instituto Ronaldinho, abrir espaço no seu cotidiano, com todas as dificuldades, para elas, as crianças, nossos vereadores mirins, dá o grau de consciência do parlamento. É que um Legislativo não é grande somente pelas ações imponentes que realiza ou pelos debates que provoca, mas pela sensibilidade política que cultiva que é capaz de perceber a importância dar atenção, no meio da vida agitada do plenário, ao olhar encantado da criança, que, desde os primeiros anos, começa a assistir a vida política de nossa capital. Esse exemplo da Cãmara merece ser imitado pelos outros parlamentos.

A Câmara Municipal de Ir-Ktaná já tem seus vereadores. Esperamos que eles experimentem o drama de lutar para que sua cidade seja melhor, não apenas porque se trata de um projeto didático que une fantasia e cidadania e que ensina as crianças sobre valores, conceitos e formas de viver bem em grupo, mas porque ali está em estado nascente uma forma solidária e coletiva educar as crianças para cuidar de nossa cidade.Esperamos que um dia, diplomar crianças no parlamento seja o projeto não de uma, mas de toda a rede de ensino.Diplomar alunos vereadores: não tem preço.



sábado, 21 de abril de 2012

Sobre a cidade


O filósofo Karl Gottlob Schelle, em “A arte de passear”,dizia que viver continuamente em atmosferas confinadas amolece o espírito e enfraquece o bom senso. Não causa a morte, mas é uma condição indireta. Observando o cotidiano da classe média em Porto Alegre, como a de qualquer outro lugar, alguma coisa parecida acontece. Vivemos marcados por espaços fechados, da casa para o trabalho de carro e nas horas de lazer, os  shoppings – o que sua expansão só fará o quadro piorar. Mas o que realmente diferencia a vida numa cidade é o uso que fazem seus cidadãos do espaço público. Será que o portoalegrense realmente frequenta os espaços públicos de sua cidade? È que queremos ser cidadãos mas nos comportamos como consumidores na cidade.  Se ficamos em espaços restritos quase todo o tempo, podemos dizer que temos vida urbana saudável para comemorar no aniversário da Capital?

É que a lógica metropolitana tem um lado perverso. Em nossas periferias, bairros inteiros estão se convertendo em territórios proibidos.  Novos territórios de povoamento surgem nos conjuntos habitacionais populares financiados pelo Estado que, à maneira das colônias do passado, levam para zonas urbanas distantes uma população pobre vista como massa.  O espetáculo da pobreza no centro da capital amplia-se para mostrar a infrahumanidade (Virilio) portoalegrense. Recordemos que até bem pouco tempo, a Prefeitura criou uma “Secretaria dos Direitos Animais” criticada justamente porque para muitos eram os seres humanos que estavam em situação de risco. Nossa cidade não é uma festa de aniversário, é um campo de batalha.

Basta olhar a geografia da cidade. Você vai de norte a sul e o quê vê na paisagem? Inúmeros novos condomínios surgindo a cada momento, lugares isolados, comunidades fechadas, mundos separados dentro da cidade. A cidade cresce por separação, esses novos enclaves são as pequenas fortalezas da elite, outra forma da desintegração de nossa vida comunitária. Precisamos, para comemorar o aniversário da cidade, de uma estratégia oposta de desenvolvimento, baseada na criação de mais espaços públicos, abertos e acolhedores, que o cidadão tenha vontade de freqüentar e compartilhar de bom grado. Onde possa fortalecer seus vínculos sociais.

Não sejamos pessimistas! Nossa cidade tem inúmeros aspectos positivos sim, que a arte e a literatura já registraram à exaustão. Mas desde que Leandro Selister colocou seu painel com mais de cem metros mostrando a vista do Guaíba se o muro não estivesse lá, a capital adornou-se de um toque pós-moderno original. De certa forma, ali está nossa verdade: podemos imaginar, como sempre fazemos no aniversário da Capital, que vivemos no melhor dos mundos, mas isto ainda é uma ilusão. A capital é lugar de alegrias e tristezas, mas se é preciso que o governo diga aos cidadãos que eles precisam “cuidar da cidade”, é porque há muito tempo, os portoalegrensens já não sentem mais a cidade como algo que seja seu. Transformar o aniversário da cidade em um festival de cultura, é bom, mas não devemos ficar nisso somente. É um momento importante pensar políticas públicas, o "como" construir uma cidade melhor, que é sempre, uma Porto Alegre mais solidária. Quem sabe, em 2022, quando completar seu quarto de século, os cidadãos, sem que ninguém os chamem, cuidem de sua cidade de uma forma natural e que isso seja parte da educação de seus filhos. 

O plenário como pedagogo


Zero Hora do último domingo fez uma extensa matéria sobre a Câmara Municipal de Porto Alegre. Para conhecer o que a Câmara faz  recomendo a leitura de “Dez Anos de Leis e Ações Municipais” obra lançada pelo Legislativo no ano passado com quase trezentas páginas nas quais pode ser visto exemplos do trabalho dos vereadores e suas ações na construção de políticas públicas na cidade. Ela é distribuida gratuitamente pela Câmara Municipal. Vá lá e pegue seu exemplar, é grátis.

O ponto de partida da matéria é que o Plenário é uma sala de aula. Não, não é, não no sentido ali atribuído. Você até pode usar a comparação para explicar o funcionamento do plenário para crianças,  mas ela não cabe numa matéria à altura de ZH. O plenário é o espaço de debates superior da cidade. No seu interior a produção de legislação responde a necessidade que nossa sociedade tem de pré-selecionar sua agenda de opções, numa palavra, o que pode e não pode fazer. Os vereadores fazem escolhas no plenário antes que os cidadãos possam fazê-las e a legislação produzida ali separa o reino da viabilidade prática do das possibilidades teóricas dos cidadãos. Quer dizer, estabelece o conjunto de restrições que os individuos necessitam seguir na sociedade para viver melhor. Não há nada nisso que lembre uma sala de aula.

O problema da comparação é que ela corre o risco de suscitar no leitor aquilo que Jacques Ranciére denominou de “ódio `a democracia”: ela incita no cidadão a idéia de que, se nossos vereadores são capazes de perder todo o seu tempo com “bobagens”- o que reputo, não é verdade - é porque eles não merecem o nosso respeito, primeiro passo para o nascimento do sentimento de ódio para com nossas instituições. O problema da comparação é sugerir ao leitor que a socialidade politica - a presença da ironia e da brincadeira – seja a própria natureza da vida do plenário, e não é. A natureza do plenário é fazer leis para a sociedade. O "papo jogado fora", na expressão de Michel Maffesoli, ocorre ali como em qualquer instituição - inclusive na redação de ZH - e tem a função de tornar sólidos os vínculos entre os atores, nunca substituindo a sua função principal. 

Paradoxalmente, a matéria atirou no que viu e acertou o que não viu. É que, se a metáfora da sala de aula pode ser objeto de crítica, a necessidade da educação no parlamento é uma certeza. E há inúmeras ações que o parlamento faz para que o cidadão possa conhecer suas leis, seus direitos  e que a matéria poderia ter ilustrado e não o fez. As instituições políticas vivem hoje um processo de valorização de seu papel educativo: “na Câmara que você não vê”, ações dão testemunho que o legislativo vem cumprindo seu papel de colaborar na educação da sociedade para a política: através do atendimento de escolas, realização de cursos, seminários, exposições, publicizando seus gastos e todas as etapas do processo legislativo - via internet - é que a Câmara assume o seu papel educativo em seu campo de influência. O plenário é uma sala de aula sim, mas não no sentido sugerido pela matéria, mas pelo ato educativo que ocorre cada vez que há participação da comunidade no seu interior. A matéria descreveu ricamente tais processos no âmbito das comissões,  mas ficou-nos devendo a descrição de tais processos no plenário - e eles ocorrem. Ali, no espaço da política em estado puro, comunidades inteiras aprendem a fazer política na prática. Nesse instante sim, transformam o plenário numa sala de aula – na sua melhor concepção. O plenário é um pedagogo.     

O que fizeram com nossa língua?


No episodio da série As brasileiras, transmitido pela Rede Globo na última quinta-feira, “A fofoqueira de Porto Alegre”, o que mais me chamou a atenção no episódio foi o sotaque gaúcho.  Rita, interpretada por Xuxa, de tanto ouvir fofoca sobre o próprio marido, termina por correr atrás da sua origem com um grupo de suas amigas. Tudo muito engraçado se não fosse o insuportável sotaque das protagonistas. Ai meus ouvidos!

Não é a primeira vez que a Globo, em nome de uma suposta licença poética, faz barbaridades em termos de representação da vida gaúcha. A novela “A vida da gente” começava com a mocinha colocando um biquíni entre as roupas para ir a serra  mergulhar num lago em pleno frio inverno. Agora, às vésperas do aniversário da cidade, o portoalegrense precisa ver uma estória passada na capital com atores interpretando nosso sotaque de uma forma irreal. É demais.

Essa é a forma reiterada de massificação de nossa cultura. A conquista da hegemonia na televisão tem um preço: a homogeneização da cultura, a padronização dos signos na televisão, que não poupa ninguém. E dá-lhe um sotaque estereotipado em horário nobre a nível nacional, forma ridícula de retratar a fala do povo gaúcho que transmite a falsa idéia de que todos carregam no falar, com suas expressões repetidas a exaustão “guria”, “báh” e por aí a fora. A versão da língua gaúcha proposta pela Globo é semelhante ao café descafeinado de que fala Slavoj Zizek: a língua vendida não quer ofender ninguém e pede até que nem nos identifiquemos com ela. Na lógica de signos televisivos tudo é permitido desde que esqueçamos um pouco a realidade. A tal “vida como ela é“ é uma obra de ficção e só serve para que possamos desfrutar de todas as belas imagens de Porto Alegre, desde que desprovidas de toda a substância que a língua oferece.

Não nos enganemos: o que vale para o sotaque gaúcho vale para toda TV. Cada vez mais, a TV se distância da realidade por esse mais-realidade, o exagero em todas as suas formas que toma conta de seus produtos. Língua, mas também violência, fatos do jornalismo, personagens de novela, tudo quer-se apresentar como a realidade quando é uma forma de reconstrução marcada pela “cavalgada aos extremos” (Baudrillard). Essa caracteristica da produção de mercadorias do capitalismo em que vivemos tem uma conseqüência: hoje, tudo o que nos cerca termina  conter em si o remédio para os males que causa. Você pode beber todo o café que quiser, já que ele é descafeinado, expressão de nosso panorama ideológico atual. E você pode ouvir o sotaque gaúcho grotesco produzido pela televisão porque neste sistema você pode desfrutar de todas as coisas, desde desprovida de sua essência. Alguém ouve aqui em Porto Alegre, às vésperas de seus 240 anos, alguém falar do mesmo jeito que a Xuxa fala? De jeito nenhum!  

Ao representar a linguagem gaúcha com exagero e excesso, a Globo trata de forma grotesca a nossa cultura.É isso. Menos Daniel Filho, menos...

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Ciclistas do mundo, uni-vos!

Nos Estados Unidos, uma propaganda ironizava estudantes que iam para a faculdade de bicicleta, mostrando um ciclista sendo ultrapassado por uma bela moça em um carro. Muito criticado, o anúncio, que terminou retirado, encerrava-se com a frase “Deixe de pedalar… comece a dirigir”. O contrário bem que poderia ser o tema do 1º Fórum Mundial da Bicicleta, a ser realizado em Porto Alegre nos próximos dias. “Deixe de dirigir...comece a pedalar” é a utopia que só pode surgir na sociedade onde o automóvel cobra alto preço por sua existência .Mas para que o seminário dê frutos e não se transforme em apenas mais um evento da capital, seus partipantes terão de responder a duas questões essenciais.

A primeira é como recuperar a necessidade da velocidade democrática. Quando foi inventado, o automóvel proporcionou a experiência inédita de andar mais rápido que diligências, carruagens, trens e bicicletas. Antes, a velocidade era democrática: todos andavam na mesma velocidade, diz André Gorz. O carro estabeleceu uma velocidade de deslocamento para a elite e outra para o povo. Mais: ele gerou uma nova forma de alienação, já que enquanto o ciclista é capaz de consertar seu veículo, o motorista torna-se dependente de especialistas que cobram caro por seus serviços. Num mundo onde todos querem ir a qualquer lugar  mais rápido, como colocar a necessidade de ir devagar?

A segunda questão é como transformar o ciclismo em questão política. No passado, no tempo em que a distância entre o mundo onde se vive e o mundo onde se trabalha era menor, a bicicleta era um bem comum e a maioria dos trabalhadores a possuia para trabalhar. Fazia parte, portanto dos procedimentos relativos à vida nas cidades – da  pólis, daí política – o uso da bicicleta. Paradoxalmente, o que despolitizou o ciclismo foi o seu afastamento das camadas populares, transformado em esporte de elite e a progressiva transformação do automóvel, de bem de elite para bem popular. Hoje, quase tudo mundo tem carro mas muitos não tem bicicleta.Tornamos as cidades inabitáveis ao deixarmos de ser proprietários de bicicletas para nos tornarmos consumidores de automóveis.

Mas politizar o ciclismo não é apenas pensá-lo somente no campo das políticas de mobilidade, atual estágio da discussão. É preciso ir mais além,  pensar o bicicletar como um novo humanismo -  “Pedalo, logo existo” - como diz Marc Augé. Não optamos pela bicicleta porque gasta menos energia ou polui menos, argumento produtivista que esquece o mais importante: optamos pela  bicicleta porque ela possibilita ao cidadão experienciar a cidade como espaço de aventura, lugar de descobertas, possibilitando as pessoas se encontrarem ao invés de ficarem reclusas em suas casas com medo da violência. A bicicleta transforma a vida social,  aprende-se a “pedalar junto“, e isto ajuda os cidadãos a tomar consciência de si mesmos e dos lugares que habitam.

Quem diria! O velho sonho comunista encontrou uma forma secreta para retornar, agora sem sangue e sem revolução: a partir de um mundo onde simples bicicletas são de todos, onde podemos pegá-las onde quer que estejamos para deixá-las logo adiante para outra pessoa, reinventamos a idéia de bem comum tão cara a esquerda. Não é o que as experiências ciclísticas de Barcelona e Paris já mostram? A Revolução Ciclista ainda não se consumou. É preciso fazê-la o quanto antes. Ciclistas do mundo, uni-vos!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Contra a privatização da educação



Conheci Fernando Luís Schüler na década de 90 como Diretor do Centro Cultural Usina do Gasômetro, em Porto Alegre. À época, integrante da gestão do Partido dos Trabalhadores na Prefeitura, que chegaria a completar dezesseis anos, Schüler, transitava com grande desenvoltura entre teóricos da direita à esquerda, mas era reconhecido por ser um militante do PT. Por esta razão, seu artigo nesta Folha (Um apartheid silencioso, 2/2/2012) muito me surpreendeu. Naquela época, Schuler realizou grandes seminários internacionais que foram responsáveis por aprofundar o pensamento contemporaneo em nossa capital: reuniu o melhor da direita (François Furet) com o melhor da esquerda (Hobsbawn, Agnes Heller). E trouxe ainda, pensadores do espectro do pós-modernismo cujas contribuições ainda estão para serem incorporadas em Ciências Sociais, como Jean Baudrillard e Michel Maffesoli. Graças aos eventos promovidos por Schüller, aqueles foram anos de um pluralidade de idéias muito grande, de grande experimentação teórica e de certa forma, os autores marxistas que trouxe terminaram por fortalecer a base de idéias de esquerda na capital, entre muitos professores do sistema educacional, possibilitando a rede de ensino da capital tornar-se referência em todo o Estado.
Schuller é um dos intelectuais mais brilhantes de sua geração, mas após duas décadas, o que realmente mudou em suas idéias? Não se trata, do direito óbvio da mudar de partido e posição, o que se vê por sua trajetória . O ex-secretario de Justiça do Governo Yeda Crusius(PSDB) compartilha o que se pode chamar do pensamento privatista em educação, liderado por Gustavo Ioschpe e que tem como base a ampliação da esfera do mercado no interior das práticas e serviços públicos. Essa posição, rejeitada pelos educadores, está baseado em quatro equívocos, que de tanto serem repetidos, correm o risco de serem tomados como verdades. Inventivo, criativo e de iniciativa, Schuller ocupa cada vez mais espaços na mídia. 

O problema é o pensamento de Schuler reforça um discurso cada vez mais privatizante e apoiador da lógica do Capital, com o qual não concordamos. Adotamos aqui os argumentos de educadores de esquerda que apontam pontos que merecem ser discutidos. Vejamos quais são.   
O primeiro deles é que os problemas da educação são problemas de gestão e as escolas, repartições públicas. Esse argumento esquece que a gestão da escola é feita por profissionais que defendem uma educação pública de qualidade há décadas. As escolas podem nascer como repartições públicas, mas o fato é que no processo de ensino e luta por uma educação melhor transformam-se noutra coisa, em espaços de aprendizagem. O professor não é um burocrata qualquer: o que o diferencia é sua visão de futuro. A idéia de que pode-se mesurar seu rendimento pelos instrumentos da ciência econômica, como apregoam Ioschpe e seus discípulos, abstrai todas as condições sociais e históricas envolvidas no processo educativo. As escolas estão do jeito que estão não por causa dos professores, mas pela fragilidade de nossas políticas públicas. Urge aperfeiçoa-las enquanto políticas públicas.
O segundo deles é que a visão antimeritocrática dos professores contribui para a crise da escola. Propor que a escola assuma em sua organização a meritocracia é propor que a escola funcione a maneira do Capital, onde os prêmios por mérito recompensam índices de aprovação - outra forma de criar uma escola voltada para a submissão bem distante do ideal dos professores, defendem uma escola capaz de forjar alunos críticos baseada em ideais de liberdade. Nada mais distante do universo de ensino de que avaliar a educação somente por números. No ato de aprovar um aluno, condições internas do processo de ensino que dependem do trabalho do professor - qualidade de ensino - confundem-se com as condições externas do mesmo processo e que as vezes determinam as condiçoes de trabalho - não ter recursos é um deles. É preciso pensar -e  isto fazem os educadores dia a pós dia - uma avaliação sim, mas qualitativa e com os critérios da qualidade, algo bem distante dos números e estatisticas de aprovação e reprovação podem dizer.
O terceiro deles é sugerir que o problema da educação brasileira está no fato de ela ser estatal. A única coisa justifica a idéia de passar a gestão da educação pública para a iniciativa privada é a necessidade de resolver os problemas da iniciativa privada - aumento do capital - e que esquece os problemas que as escolas privadas também tem, como controle e perda da liberdade de criação. É a velha proposta de comprar vagas junto ao empresariado ao invéz de investir na rede pública, estratégia rejeitada pelos educadores mas defendida com força pelos empresários da educação. Para a iniciativa privada, escola é fonte de renda, e nada mais.
O último deles é que, neste sistema, os alunos poderiam então “escolher onde estudar. O empresariado atpode visualizar este sistema para as cidades, que possuem uma infraestrutura desenvolvida, mas que empresário irá preocupar-se com a educação dos rincões de miséria e pobreza de nosso pais? Os empresários da educação farão prédios e contratarão professores para lá? Ora, por favor Schuler, o Estado possui uma estrutura deficiente, é verdade, mas é ele que garante o cumprimento do “direito à educação”, de forma universal e para todos os brasileiros. Aperfeiçoa-lo, corrigir seus problemas é o que se pede, não substitui-lo pelo privado, o que é rejeitado pelos educadores. Não é o suposto apartheid educacional que é silencioso, é a ideologia privatista em educação que movimenta-se e agrega defensores sem produzir som algum.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O pianista e o comandate






Depoimento de sobrevivente do acidente do navio italiano citado por Zero Hora diz que, em meio à tragédia, o pianista continuava a tocar. A imagem tem sentido não pela comparação equivocada que se possa fazer com outra tragédia, a do Titanic, prestes a completar seu centenário, mas com outra imagem, a do capitão do navio, agora responsabilizado pelas autoridades. Se Marx está certo e uma tragédia só se repete como farsa, do que se trata o naufrágio do navio Costa Concordia e o que ele tem a nos ensinar?


A tragédia do navio naufragado está mais para as Twin Towers do que para o Titanic. O que surpreende não é o fato óbvio de que se trata de mais um navio a naufragar, mas de um objeto que se pensa indestrutível vir abaixo, exatamente como as Torres Gêmeas. Lá, um ato aparentemente irracional do terror – que de irracional não tem nada – destrói um prodígio arquitetônico, símbolo de uma nação. Aqui, um ato aparentemente irracional de seu comandante destrói um prodígio náutico, símbolo da vida de consumo de nossa época. O que está em questão nunca foram os navios ou prédios – sim, claro, nos padecemos por sua vítimas etc., etc., – mas o que é derrubado, o que afunda realmente são as nossas certezas frente à técnica. Estou na praia escrevendo estas linhas: como é possível que barcos que vejo no horizonte, primitivos e toscos, possam manter-se de pé enquanto o imenso e indestrutível bólido aquático, com todo o seu sistema de proteção, afunda nas imagens?


É na relação do comandante e do pianista que encontra-se a resposta. Sim, é sempre no homem, no que crê e no que baseia sua existência, que está a resposta. No mundo do individualismo obsessivo, do cada um por si na escalada capitalista, pode-se agora encontrar um capitão de navio disposto a deixá-lo antes da hora: fim da ideia de cumprimento do dever. Por isso é tocante a imagem do pianista – seja o relatado pelos viajantes do Titanic, o representado no filme de James Cameron e agora atualizado na fugaz imagem de um instante visto por um sobrevivente e que nos diz mais do ser humano do que anos de filosofia: trata-se, mais uma vez, da questão da ética do dever, que retorna para nos lembrar do que somos e do que devemos fazer.


Devemos fazer aquilo para o que nos preparamos a vida inteira, numa palavra, fazer o certo. Assim como a mensagem inscrita no monumento Osório, o caminho do dever é árduo mas é o único que nos diz que somos seres livres, capazes de fazer escolhas não por nossos instintos mas pela certeza de realizar o que é belo, justo e perfeito. A farsa da tragédia é sugerir que, só porque são espetaculares, nossos inventos são indestrutíveis e que, corrigindo suas falhas, nunca mais ocorrerão. Ao contrário, quanto mais espetaculares inventos criamos, mais frágeis nos tornamos. Frente a esta tragédia, é preciso lembrar que só fortalecendo o homem – seu caráter, sua consciência – e não seus inventos, que se fará a diferença.


Publicado em Zero Hora 14/01/2012
————————————–