sábado, 12 de novembro de 2011

Por trás da polêmica do IDEB






A ideia de Gustavo Ioschpe de tornar obrigatório afixar no portão de entrada das escolas os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, o IDEB, tornou-se perigosa porque foi encampada por três projetos de lei apresentados na Câmara dos Deputados. O próprio MEC alertou no início da tramitação que tais projetos eram constrangedores para as escolas, e é consenso entre os órgãos de classe, como a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), que há inúmeros problemas nas escolas brasileiras que independem do esforço dos professores e que afetam o processo de ensino – como as condições das instalações, a falta de energia elétrica e água em escolas rurais, etc. A conclusão é que a proposta do economista cobra dos profissionais de ensino o que deve ser responsabilidade do Estado, estabelece uma competição desnecessária entre as instituições educacionais, aumenta o estresse profissional de professores e reduz a autoestima de alunos. Se a proposta vencer, será praticada uma violência simbólica contra a escola: ela será jogada, de uma vez por todas, ao sabor da ideologia pura de mercado, ao ser submetida ao princípio da competição, cujo efeito é reduzir a autonomia escolar, substituir a defesa do desenvolvimento integral do aluno pela busca de indicadores baseados em dados quantitativos – e não qualitativos – e na gestão de recursos financeiros.




O que está por trás dessa discussão? O pressuposto de Ioschpe é que teorias e métodos econômicos podem ser aplicados à educação. É o que faz em sua obra “A ignorância custa um mundo” (ed. Francis, 2004), na qual defende a analogia entre produtividade física do capital e educação. Defende, entre outras ideias, que “basta imaginar que a escola é uma instituição especializada na produção de treinamento” (p.33) e que “os princípios da economia também se aplicam ao 'mercado' da educação” (p.152). Mais grave, o autor propõe uma reforma do ensino brasileiro baseada, entre outras coisas, no “fim da gratuidade do ensino público universitário” (p.231, grifo meu) e no ”fim do desconto no IR para gastos com educação” (p.243). Para mim, a “economia da educação” de Ioschpe é o mais puro pensamento de direita, na qual a economia, a defesa de índices, o mercado e o liberalismo são o remédio pronto para a solução de todos os males da educação. É nela que se fundamenta a defesa da afixação do IDEB nas fachadas das escolas. Em “Rumo ao Abismo” (Bertrand Brasil, 2011), Edgar Morin mostra o quanto esse paradigma é equivocado quando se trata da educação. Para Morin, "a ciência econômica, ao mesmo tempo em que é a ciência social matematicamente mais avançada, é a ciência social humanamente mais retrógrada”, pois “se abstraiu das condições sociais, históricas, políticas, psicológicas, ecológicas, inseparáveis das atividades econômicas” (Morin, p.48). A afixação do índice do IDEB na fachada das escolas é o simulacro perverso e deformador desse universo econômico. O indicador aliena porque compartimentaliza, separa e isola aquilo que os educadores veem de forma interdependente: as condições de produção do trabalho escolar. Sua falsa racionalidade baseia-se num mecanismo ideológico elementar: a tentação do sentido. Diante dos terríveis problemas educacionais que vivemos hoje, a valorização de indicadores surge como portador de sentido, mas esconde por trás uma perversa lógica econômica baseada na defesa da competição. A ilusão vendida por Ioschpe é que, se indicadores servem para economistas, devem servir para os profissionais do ensino. Nada mais perverso, porque o que ele não diz é que a economia capitalista não é um mundo equilibrado, ao contrário, é um mundo repleto de catástrofes no qual os problemas da educação são justamente um de seus produtos.




Sua posição não poderia ser diferente: está inscrita em seu DNA. Filho de conhecido empresário, é acionista da Ioschpe-Maxiom, companhia fundada em 1918 que se expandiu do ramo madeireiro para o setor financeiro e industrial, chegando a lucros de 58,597 milhões no terceiro trimestre de 2010. Quer dizer, faz parte do habitus (Pierre Bourdieu) dele a incorporação em seu modo de agir, sentir e pensar do modo de ser de sua classe social, a classe dominante. Procurei em vão na internet informações sobre sua experiência como professor de escola pública e não encontrei nada – repito nada! - que o qualifique como tal. A pergunta que não quer calar é: como pode alguém que não teve a experiência de sala de aula dizer que é melhor para os professores que o IDEB seja afixado na fachada de sua escola? Mais: como pode sugerir que instrumentos da economia sejam orientadores para a educação? A minha resposta é: não pode. É necessária a experiência de professor para sugerir caminhos para a educação, e a "economia da educação" nada mais é do que ópio para as massas, e a defesa de indicadores, mitificação ideológica . É como se dissesse: “educador, não te metas com a verdade dos índices porque eles são a nossa verdadeira natureza”. No universo de Ioschpe não existem nem pessoas nem contradições, apenas fórmulas matemáticas: “[...] minhas pesquisas e conclusões são respaldadas por números e estatísticas” (A Ignorância... p.14). Diz o filósofo Slavoj Zizek: “O difícil é encontrar poesia e espiritualidade nessa dimensão”.






Ora, além de ser moralmente errado aplicarem-se conceitos de investimento e capital às pessoas, há o risco de indicadores como o IDEB serem utilizados de forma inadequada nas decisões de políticas educacionais. Se os governos levarem em consideração somente os valores apontados no índice, as contribuições e as análises culturais da educação não serão consideradas. Isso é terrível. A educação tem um papel econômico, é claro, mas não a ponto de perdemos as referências às questões sociais de base que tratam, justamente, da crítica às condições de reprodução da escola no interior do capitalismo. Ioschpe defende a ideia de afixar o índice do IDEB na fachada das escolas como seu gesto de amor para defender a educação, mas seu verdadeiro amor é o Capital e seu pensamento, ideologia a serviço da servidão.




Publicado no Jornal da Universidade (UFRGS
), outubro de 2011

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Menos iPod, mais miojo





Sou pré-histórico. Não tenho iPhone, iPad e nem iPod. Meu celular tem inúmeras funções graças a Steve Jobs, mas só uso uma ou duas. E quanto a tela touch screen, alguém pode me explicar porque os nomes da agenda deslizam tão rápido que mal consigo selecioná-los?





Desculpe, estou ficando velho e as rabugices marxistas vem à tona. Não entendo porque tanta idolatria com os feitos de Jobs. Quem disse que suas invenções fizeram avançar a humanidade? Seus aparelhos são o tormento de inúmeros professores: os alunos perdem a concentração da sala de aula porque estão ouvindo seu iPod; você não consegue falar com uma pessoa porque ela está no seu iPhone - “só um instante, só um instante!” - e não abro mão da experiência táctil que um livro possibilita – vade retro iPad!





A celebração dos feitos de Jobs oculta o fato de que todo avanço tecnológico cobra um preço. A invenção do avião foi também a do desastre aéreo; a do navio, o naufrágio e a do trem, o descarrilhamento. Toda a invenção cria o seu acidente, diz Paul Virilio. O avanço digital também tem o seu: torna nossa sociedade mais individualista e compulsiva. Pessoas caminham como zumbis nos parques alheios a beleza natural e a caminhada a dois passa a ser uma caminhada individual; ficam obcecados com a telinha do computador e não desviam o olhar sequer quando você lhes dirige a palavra e a leitura de textos em um iPad só faz as pessoas terem menos paciência para lerem textos longos. Como repetem os adoradores das criações de Jobs, tudo ficou mais fácil com ele, é verdade – outra forma de dizer que seu sucesso se deve ao fato de reconhecer que somos todos estúpidos. “É fácil de usar? Então estou dentro”.A questão é que as criações de Jobs não são instrumentos passivos de informação “Eles fornecem o conteúdo de nossos pensamentos, mas também modelam o processo de pensamento”, diz Nicholas Carr. Isto que dizer que devemos parar de usá-los? É claro que não! só que devemos ser mais críticos quanto ao condicionamento que provoca ao nos possibilitar receber informação de forma rápida e superficial.





Confesso que fiquei mais triste quando morreu em 2007 Momofuku Ando. O inventor do macarrão instantâneo e fundador da Nissin Foods Products morreu aos 96 anos de ataque cardíaco. Ando teve a idéia de criar o macarrão instantâneo depois da 2ª Guerra Mundial quando via as pessoas passando inúmeras horas na fila para comprar alimentos no mercado negro devido ao racionamento. Qual foi a invenção mais importante para a humanidade, a do miojo – nenhuma unanimidade, dirão os nutricionistas – que mata a fome e socializa ou a do iPod que aliena e individualiza?





Alto lá.! É claro que Jobs tem imenso valor, mas não por suas invenções, mercadorias que o Capitalismo adora, mas pela simplicidade das idéias que expressou no famoso discurso de Stanford ”você tem de encontrar o que você ama”. Sorte de Jobs que encontrou algo que também o deixou rico.


Publicado em Zero Hora em 10/10/2011


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Os eleitos, as eleitas

A realização pela Câmara Municipal de Porto Alegre do Seminário Internacional “As Eleitas, Os Eleitos: como parlamentares tornam-se parlamentares” é uma resposta àqueles que defendem o fim do legislativo junto à crítica do reajuste dos vencimentos dos parlamentares. Você pode concordar ou não com a idéia de reajuste, mas daí passar a acreditar na inutilidade da política e dos representantes locais é um perigo para a democracia. Todos os painelistas foram unânimes em valorizar a importância da boa política, da necessidade de formar novos bons políticos – vá-la, vá-la, sociedade e estado ainda não chegaram a um consenso quanto ao seu salário, ok, ok – mas não se pode por esta razão perder a fé nas instituições públicas da democracia.

Toda a programação do Seminário Internacional fez jus ao que se espera que um grande parlamento faça: debater exaustivamente e em alto nível sua função na sociedade, aproximar a pesquisa universitária dos agentes públicos, promover um diálogo entre agentes sociais e principalmente, reforçar na comunidade a ideia de que a democracia local precisa ser fortalecida pelo cidadão. Precisamos que os parlamentos locais lutem por uma sociedade melhor e os pesquisadores apontaram elementos para a sua defesa: o fato de que os vereadores, após a Constituição de 1988, tornaram-se um elo forte na constituição de políticas públicas nos municípios; o fato de que 93% dos quase 50 mil parlamentos estão localizados em pequenas cidades; o fato de que o militantismo, ou seja, a forma como as pessoas se engajam nas agremiações partidárias, é questão central para o fortalecimento da política local. O que não significa que não tenhamos problemas a resolver: o fato de que somente uma minoria (7%) das cidades tem parlamentos com visibilidade e acesso à imprensa; o fato de que 38% das mulheres sofrem resistência da família, sendo 22% dos cônjuges, para entrar na política, são alguns exemplos dos desafios que as Câmaras Municipais ainda tem de enfrentar.

Enquanto isso, parcela da sociedade ainda ignora o que fazem seus vereadores. Mais, desconhece o esforço daqueles que tem sua agenda dedicada a melhorar a cidade. Devemos separar o bom do mal político, é claro, mas devemos reconhecer o valor da boa política para o desenvolvimento da cidade. Às vésperas de mais um pleito eleitoral e no momento em que se tecem as articulações para as eleições de prefeitos e vereadores, sejam quem forem “Os Eleitos” ou “As Eleitas” a quem entregaremos nosso voto nas próximas eleições, o que está em jogo é o valor que damos a idéia de representação, a boa escolha eleitoral e às instituções da sociedade democrática.
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A sinuca da educação

"A verdadeira utopia é a crença em que o sistema global existente pode se reproduzir indefinidamente. A única maneira de ser verdadeiramente realista é imaginar o que, dentro das coordenadas desse sistema, só pode parecer impossível." Slavoj Zizek

O snooker é um jogo de mesa, tacos e bolas surgido na Grã-Bretanha em 1875 e que recebeu no Brasil o nome popular de sinuca. Praticado por milhares de pessoas, com adaptações oriundas dos jogos americanos, um de seus movimentos é denominado bricol, que consiste em lançar a bola branca para que toque uma tabela antes de tocar a primeira bola objetivo. A bola branca repica e atinge outro alvo.

Algo semelhante ocorre quando Gustavo Ioschpe publica em Veja o artigo “Você acha que as escolas particulares brasileiras são boas?”. Depois de criticar o sistema público, Ioschpe volta -se contra o sistema privado, que na sua opinião, é no mínimo sofrível. E critica a satisfação dos pais que tem seus filhos nas escolas privadas, que sofreriam daquilo que os alemães chamam de Schadenfreude “a satisfação diante da desgraça alheia”.

O bricol praticado por Ioschpe é simples: ele mira nas escolas privadas para atingir as escolas públicas. Seu artigo contém uma mensagem perversa: privatizem a escola pública! Ela está inscrita na comparação com o sistema chileno, que privatizou grande parte de sua educação básica quando então começou a selecionar os melhores “Se a escola atrair os melhores, provavelmente será a melhor”, diz. Ioschpe acerta na defesa da participação dos pais na educação dos filhos mas erra ao defender a ideologia liberal da pior espécie: a defesa da concorrência, da hegemonia da educação para o trabalho e da culpa dos professores pelas fraquezas do sistema de ensino. A escola privada brasileira é ruim porque a pública é muito pior, conclui.

Eu teria muito a dizer porque discordo de sua posição mas Zero Hora fez isso por mim na reportagem da última segunda-feira. Com um título que sugeria o pior “Estado cai no ranking do Enem”, a matéria mostrou que o Rio Grande do Sul perdeu a supremacia no ranking do Exame Nacional do Ensino Médio sim, mas, observando com atenção comparativamente os dados das vinte melhores escolas públicas do Estado com as respectivas vinte melhores privadas da capital, a surpresa. Primeiro, a média do estado avançou 6 pontos percentuais para mais; segundo, as três primeiras escolas públicas do Estado - o Colégio Militar de Porto Alegre,o Colégio Politécnico de Santa Maria e o Colégio Tiradentes - ficaram respectivamente com 693,69, 693,43 e 665,93, valores superiores aos das duas primeiras escolas privadas do Estado - o Colégio Leonardo da Vinci – Alfa e o Colégio Marista Nossa Senhora do Rosário - que ficaram respectivamente com 661,68 e 647,43 pontos e portanto, foram superadas pelas escolas públicas. Onde estão as piores escolas públicas apontadas por Ioschpe?

Temos que melhorar a educação? É claro que sim. Há muitas escolas públicas com problemas? Evidente, mas não melhoramos a educação pública desvalorizando o esforço dos professores e dos sistemas que funcionam em nome da privatização, mas exatamente com pregam os “radicais de esquerda”, através de um engajamento sociopolítico concreto de todos em defesa de uma educação libertária crítica a raiz do sistema capitalista. Como em uma parede de Paris em 68 “sejamos realistas: exijamos o impossível!”

Não é a vida da gente









Se você acha que critica sociológica de novela não serve para nada, pare agora de ler este artigo. Vou avisar mais uma vez: se você acha que tudo pode em termos de “licença poética”, pare agora de ler. Eu avisei.
A estréia de A vida da gente é destas pérolas da indústria cultural brasileira: não há dúvida da qualidade da sua produção e do trabalho de atores e diretores, mas quando o negócio é fazer um retrato da realidade, quanta diferença!
Vejamos: o par romântico mergulha em pleno inverno numa das lagoas no frio da serra gaúcha; a mocinha põe na bagagem um biquini entre as roupas para a ir a serra (!)e um ônibus antigo que você nunca viu na rodoviaria faz a ligação de Porto Alegre à região em instantes e voilá, eis a vida da gente como ela é!
Verdade seja dita: Jaime Monjardin é um cara honesto! Ele disse com todas as letras no Jornal do Almoço (26/9): “Não esperem continuidade na novela”, querendo dizer com isso que a nossa geografia será submetida aos critérios da chamada “licença poética”.
Licença poética uma ova! Essa é a forma reiterada de massificação de nossa cultura. A conquista da hegemonia na televisão tem um preço: a homogeneização da cultura, a padronização dos signos na televisão que não poupa ninguém. Há algo errado neste mundo onde tudo é sempre igual e onde sempre lhe dão mais do mesmo. Ele parece a realidade, mas não é: as cenas devem-se passar nas ruas chiques de Porto Alegre, ou nas paisagens paradisíacas da serra, pois para os roteiristas e produtores é o que o público quer ver, a nossa vida. Não, não é a nossa vida, é uma reconstrução inviesada dela.
No fundo, no fundo não é a nossa vida porque é a vida carioca que mais uma vez os roteiristas e autores querem retratar, com fachada gaúcha como pano de fundo. E dá-lhe um dia a dia sem expressões idiomáticas, com geografia que não corresponde ao real, com hábitos deslocados da terra apresentados como se fossem dela. A versão gaúcha proposta pela Globo é semelhante ao café descafeinado de que fala Slavoj Zizek: a imagem vendida não quer ofender ninguém e pede até que nem nos comprometamos com ela. Tudo é permitido a nós consumidores e podemos desfrutar de todas as belas imagens da serra gaúcha desde que desprovidas de toda a sua substância.
É a caracteristica da produção de mercadorias do capitalismo em que vivemos. Hoje, tudo o que nos cerca deve conter em si o remédio para os males que causa, diz Zizek. Você pode beber todo o café que quiser, já que ele é descafeinado, expressão de nosso panorama ideológico atual. Neste sistema você pode desfrutar das coisas desde que sem a sua essência e voilá ei-nos diante da serra gaúcha no inverno sem frio, mergulhando nus em lagos gelados com biquíni na bagagem para consumo em rede nacional. Nessa novela na serra ninguém treme do frio? Cadê o frio? É como o carro que você não precisa mais dirigir, e que numa tacada, tira todo o prazer que a direção provoca. Monjardin, menos....aqui nos comprometemos com a realidade sim: frio já!.Cadê o inverno gaúcho? Como diria Robin “santa enganação Batman!”

domingo, 10 de julho de 2011

Decifra-me ou te devoro

O que torna profundamente atual o pensamento do esloveno Slavoj Zizek, de quem a editora Boitempo acaba de lançar Em Defesa das Causas Perdidas e Primeiro como Tragédia, depois como Farsa, é seu trabalho sobre a ideologia. Não se trata da retomada de O Mapa da Ideologia, obra sua já conhecida dos brasileiros, mas do aprofundamento de aspectos de O Sublime Objeto da Ideologia (Siglo XXI, 2005, inédito no Brasil).

Nesse livro de 2005, Zizek integrou de forma original as percepções psicanalíticas da fantasia à crítica marxista da ideologia. Isto lhe lhe permitiu, pela primeira vez, propor uma teoria de como funciona a ideologia no plano subjetivo: “Não existe a crença comum, o que existe é a crença em que os outros creem”.Zizek reconstrói os processos que fazem homens, em determinadas circunstâncias, justificarem e darem um ar de verdade a uma mentira, numa espécie de construção coletiva . O “vamos fingir que as regras funcionam” oculta, entretanto, o fato de que as instituições no capitalismo contemporâneo estão falidas e ninguém de fato acredita nelas. Agimos como na fantasia de Papai Noel: nem os adultos nem as crianças acreditam mais nele. Pior: agimos assim com nossas instituições, inclusive com a democracia. A subjetividade também está sob tremenda pressão da ideologia: cuidado, o capitalismo quer dar um significado a sua vida, diz Zizek. Ele toma como exemplo os anos que passamos consumindo publicidade, uma das melhores formas de se pensar o que acontece com nossa subjetividade. Nos anos 1960, a propaganda automobilista vendia as qualidades de um carro; nos anos 1970, o status que ele oferece ao consumidor para finalmente, hoje, ser a promessa de libertação da sociedade opressora.

Para Zizek, o capitalismo contemporâneo é profundamente ideológico: “A política desse capitalismo é a despolitização para que não haja mais uma ideologia clara”. Na sociedade de consumo (um conceito caro a Baudrillard), a ideologia vendida é a ideologia da diversão como na expressão latina Carpe diem (“Aproveitem o dia”). Nada mais comprovador do conceito de Lacan – apropriado por Zizek – de gozo excedente, um gozo que nos suborna para mascarar os nossos problemas. A solução, para Zizek, é o retorno à noção de economia política tal como proposta por Marx: politizar a economia, e é nesse sentido que Zizek mais se aproxima de outro teórico do marxismo, Robert Kurz.

A ideologia do capitalismo contemporâneo, sustenta Zizek, quer que acreditemos que a economia não tem nada haver com a política: ela quer uma sociedade apolítica, e para isso constrói a ideia de que é besteira discutir política. Nisto reside a radicalidade de Zizek: ele quer que a democracia se garanta sem as influências das pressões de mercado.Yannis Stavrakakis, em A Esquerda Lacaniana – Psicanálise, Teoria, Política (Fondo de Cultura Econômica, 2010, inédito no Brasil), deu-se conta que o pensamento de Zizek consolidou-se ao longo dos últimos 15 anos, período em que a psicanálise e a teoria lacaniana passaram a ser recursos importantes na reorientação da teoria política contemporânea. Essa posição, para qual boa parte dos cientistas políticos torce o nariz, origina-se no próprio pensamento de Lacan, que não foi apolítico – ao contrário, fez críticas ao American way of life, ao capitalismo americano e à sociedade de consumo, o que o levou a associar sua noção de mais-gozo à noção de mais-valia de Marx.

Nesse caminho estão Zizek, Cornelius Castoriadis, Alain Badiou e especialmente Ernesto Laclau, para quem “a teoria lacaniana aponta ferramentas decisivas para a formulação de uma teoria da hegemonia”, daí a definição de seu horizonte teórico-politico em termos de “esquerda lacaniana”, nítido campo de intervenções políticas e teóricas a partir da psicanálise – mas não somente dela – que parte para a crítica da hegemonia capitalista contemporânea.Em Primeiro como Tragédia, depois como Farsa, lançado simultaneamente pela Verso (Londres) e Flamarion (Paris) em 2009, Zizek pergunta se estamos preparados para a história que se impõe sobre nossas cabeças desde os ataques de 11 de Setembro. Ele mostra as manobras por detrás das ideologias levantadas pela atual crise (2008) e que levou bilhões de dólares para os bancos. Para Zizek, o que é profundamente ideológico é tratar as crises do capitalismo como algo estranho ao próprio capitalismo, ideia que deseja vender a imagem de um mercado capitalista regulado de outro modo. Ao contrário, ele nos mostra cada vez mais o capitalismo sobrevivendo abaixo de terapias de choque, num mercado que exige violência extramercado para seu funcionamento.

Já na obra Em Defesa das Causas Perdidas, Zizek vai contra o pensamento hegemônico que vê a democracia liberal, as vezes dita pós-moderna, como o melhor dos mundos frente ao passado das lutas comunistas. Isso não quer dizer que as “causas perdidas” que defende estejam abrigadas pelo teto do Fórum Social Mundial: para Zizek, seu lema “Um outro mundo é possível” mostra que seus protagonistas ainda relacionam-se demais com a estrutura já posta pelo capitalismo. Para fazer seu caminho, ele faz a opção por retornar ao marxismo a sua maneira, o que tem o peculiar efeito de chamar a atenção mundial sobre sua obra: não há dúvida, o que Zizek faz é tornar sedutor o marxismo para as novas gerações. Para isso articula Lacan, Hegel e Marx com cinema, música, cultura popular e a crítica dos objetos de consumo. Em Defesa das Causas Perdidas, entretanto, padece do problema comum aos grandes pensadores contemporâneos: como produzem demais, escrevem demais, torna-se frequente encontrar traços de obras anteriores nas seguintes. Não há como deixar de ver no capítulo 2, Lições do Passado, o eco de suas obras anteriores sobre Robespierre e Mao, ou dos estudos anteriores que fez sobre o stalinismo publicados em espanhol. Há, entretanto, reflexões sobre o pensamento de Heidegger extremamente originais e que não haviam aparecido anteriormente, contudo. E é claro, Zizek sempre é um grande contador de causos que sintetizam brilhantemente suas ideias. Em um determinado momento de sua obra, ele cita a ficha de um hotel americano: “Prezado cliente: para garantir que você vai desfrutar sua estadia conosco, o fumo está totalmente proibido neste hotel. Qualquer violação deste regulamento resultará numa multa de US$ 200”. Assim é o capitalismo, diz Zizek: estamos condenados a ser castigados se recursarmos a desfrutá-lo plenamente. Zizek quer nos mostrar o cinismo do capitalismo contemporâneo em sua caminhada em direção a um capitalismo autoritário, contrário ao direitos humanos, como anuncia o caso chinês. E o grande perigo é que ele pode estar certo.

Publicado no Caderno de Cultura de Zero Hora, 8/6/2011

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Primeiro como tragédia, depois como farsa




No documentário Examined Life (2008), de Astra Taylor, Slavoj Zizek aparece em um imenso lixão americano vestido como um trabalhador do meio, numa imagem que não poderia ser melhor para resumir seu pensamento: lá onde fica aquilo que jogamos fora, aquilo que não damos importância e não perguntamos para onde vai está a metáfora do capitalismo que vivemos hoje, um sistema que se mostra maravilhoso em sua forma e mercadorias, mas que faz isso apenas mostrando um lado da história e ocultando todas as lutas sociais. Aquilo que não nos é dito e que leva a sua aceitação tem um nome para Zizek: ideologia.



Pois é justamente a análise da ideologia do período entre o 11 de Setembro e o colapso financeiro mundial de 2008 que é o centro de sua argumentação em Primeiro como tragédia, depois como farsa. Zizek, junto com Alain Badiou e Ernest Laclau, constitui o centro da “Nova Esquerda Lacaniana”, cuja principal característica é aplicar conceitos da psicanálise e da filosofia à critica da ideologia liberal. É o que faz em riqueza de detalhes nesta obra ao mostrar como a tese de Fukuyama do fim da história e a crença na democracia liberal capitalista finalmente foi vencida – ou morreu duas vezes. Primeiro, com o 11 de Setembro, que simbolizou o colapso da utopia política democrática liberal – sem, no entanto, afetar a face econômica – e segundo, com a crise financeira de 2008, símbolo do fim da face econômica do sonho de Fukuyama. A análise das condições e consequências dos acontecimentos desse período e da ideologia capitalista que determina a sua percepção faz-se no meio de uma compreensão engajada – Zizek adota o lado da defesa da idéia comunista, que ainda vive.



Renovando o pensamento de esquerda, com um texto repleto de ironia e exemplos notáveis, Zizek desvela a face perversa de um capitalismo cínico que se diz democrático, mas que oculta em seu interior um monstro autoritário prestes a nascer.


Publicado no Le Monde Diplomatique, julho de 2011